Como escutamos as construções de feminilidades negras na clínica psicanalítica de pacientes adeptas às espiritualidades de matrizes africanas?

Autores

  • Isis Abena Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568218

Resumo

A colonialidade requer a separação do corpo e do espírito, a desespiritualização de tudo que é vivo para justificar sua intensa exploração. Marginalizando e demonizando todos os signos que correspondem a produção de saberes de povos originários, sobretudo mulheres negras e indígenas, levando ao apagamento de nossas práticas e costumes, a fim de manter o controle para manutenção dos interesses do grupo dominante. A colonização, a Modernidade, nos impõe a noção de ruptura com nossas tecnologias e conhecimentos ancestrais para situar que a cosmovisão hegemônica corresponde ao progresso, impondo uma centralidade imperativa na construção de um ideal de Eu branco, como nos aponta a psicanalista Neusa Santos Souza, inclusive, no que tange construções de feminilidades negras. Diante dessa fragmentação, fruto da colonização e desumanização a que pessoas negras foram submetidas, o silenciamento discursivo sobre feminilidades negras é uma fratura que está presente na clínica. Enquanto psicanalista amefricana, nordestina e periférica, nascida em Salvador, território ancestral, compõe minha formação teórica, para além do instrumental psicanalítico, os campos do feminismos negros e decoloniais, as epistemologias de terreiro que carrego a partir da minha vivência em espaços de espiritualidades de matrizes africanas. Reconheço a importância de uma clínica implicada e atenta às questões raciais do contexto brasileiro, bem como de gênero, classe e outras dissidências. Na experiência clínica observo as espiritualidades de matriz africana e a memória presente nos ritos e gestualidades negras, como ciência credível. Proponho um diálogo sobre como a clínica psicanalítica contemporânea tem acolhido as construções de feminilidades negras que chegam aos nossos consultórios intermediadas pelo contato com espiritualidades de matrizes africanas. Ao nos posicionar desde uma escuta atenta às questões de raça, gênero e classe associada epistemologias feministas contra-hegemônicas do Sul, apontamos as limitações próprias da psicanálise hegemônica e elitista para problematizar as limitações de uma escuta pautada na subjetividade de mulheres brancas, burguesas e apontar críticas baseadas nas experiências da escuta periférica e marginal e cosmopercepções não ocidentais. Assim, este será um espaço para dialogar sobre a presença das espiritualidades negras na clínica enquanto um organizador psíquico para construções de feminilidades negras mais resistentes aos efeitos persistentes da colonização na subjetividade de mulheres racializadas. Para tanto, meu ponto de partida são as experiências pessoais enquanto analista negra e de matriz africana, a escuta periférica aliada a minha pesquisa no mestrado vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo na UFBA. Para além de uma possível cartografia sobre a dimensão da espiritualidade na clínica contemporânea, pretendemos discutir as implicações éticas, epistemológicas e mesmo ontológicas da presença de mulheres negras de matrizes africanas ocupando a posição de analista e de analista. As experiências e possibilidades discutidas convidam a dialogar sobre a relevância de ampliar a escuta psicanalítica considerando outros campos de produção de conhecimento para além da formação teórica tradicional.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

Como escutamos as construções de feminilidades negras na clínica psicanalítica de pacientes adeptas às espiritualidades de matrizes africanas?. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568218