Cartas e dissidências de gênero e sexualidades: uma metodologia encarnada frente ao trauma colonial
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18569074Resumo
A partir de Sandor Ferenczi, entende-se que o trauma só se constitui como patogênico quando o sofrimento da vítima não é legitimado pelo outro (Gondar, 2012). Fanon (2020) denuncia os efeitos psíquicos e sociais do racismo estrutural e da colonização, mostrando como o homem negro foi reduzido a objeto pela ciência e pela cultura eurocentrada; Miller (2011) critica a doutrina cristã do quarto mandamento por legitimar relações de violência e silenciar a dor infantil, mas sua leitura é questionada por desconsiderar recortes de raça, classe, território e gênero, universalizando uma infância branca e europeia. Contra essa homogeneização, os feminismos negros e decoloniais denunciam que as infâncias negras e colonizadas são atravessadas por feridas específicas, fruto da colonialidade de gênero, raça e da hierarquização de quais vidas infantis merecem cuidado. Esses autores evidenciam que o trauma não pode ser pensado apenas no nível individual ou familiar, mas deve ser compreendido em suas imbricações com a colonialidade, o racismo e a cisheteronormatividade. No contexto desse trauma, as cartas carregam uma potencialidade ligada a seu uso social entre comunicação e memória, que podem dar espaço às suas transformações psíquicas desses traumas. Há nelas uma dimensão de elaboração subjetiva, a qual também abre espaço para uma escrita do inconsciente. Guardam ainda uma dimensão corpórea, pois nelas é possível descrever cheiros, imagens, sons, texturas, explorar símbolos, fantasiar. Dado esse panorama, buscamos analisar como a partilha da escrita de cartas, quando ocorre atravessada pelas dissidências de gênero e sexualidades, ganha uma dimensão política necessariamente coletivizada e, neste movimento de giro, pode fazer resistência ao trauma coletivo da colonialidade que cotidianamente insiste em mortificar - simbólica e materialmente - esses corpos. Elaboramos essa pesquisa bibliográfica, em busca de responder ao seguinte problema: como a escrita e troca de cartas entre pessoas dissidentes de hegemonias de gênero e sexualidade pode funcionar como ferramenta encarnada de resistência frente às feridas do trauma colonial? O objetivo é apresentá-las como proposta metodológica de um dispositivo de produção de um “si” coletivo. A pesquisa baseia-se na interlocução entre duas teses, em andamento, as quais fazem das cartas sua base metodológica, como ferramenta de elaboração e corporificação da escrita de si, individual e coletivamente. Neste recorte, buscamos dialogar com as psicanálises a partir dos seus cruzamentos e (in)suficiências, em articulação com os feminismos negros e decoloniais, pois descolonizar o conhecimento exige redes de escrita e partilha autobiográfica entre corpos fronteiriços, capazes de desafiar as narrativas homogêneas da academia e valorizar a singularidade na produção do saber. Entendemos as cartas como um dispositivo metodológico que possibilita a corporificação da escrita de si em diálogo com o outro, abrindo espaço para um “nós” coletivo que ressignifica as feridas coloniais e produz novas formas de existência. Defendemos que a experiência vivida, quando narrada e partilhada, transforma-se em conhecimento legítimo e em ferramenta de resistência - uma aposta na construção de comunidades de afetos, subjetividades e saberes que resistem à violência colonial, recuperando a dignidade de corpos historicamente silenciados e criando outras possibilidades de futuro.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
Cartas e dissidências de gênero e sexualidades: uma metodologia encarnada frente ao trauma colonial. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569074