Pedagogias do patriarcado

Autores

  • PATRICIA FASUOLO SERFATY Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568226

Resumo

O que pretendo neste trabalho é explorar criticamente o sistema patriarcal e a violência de gênero cometida por homens sem antecedentes criminais, homens comuns que são capazes de romper com critérios de humanidade. O tema abrange tanto saúde sexual e reprodutiva das mulheres quanto violência de gênero, convidando a pensar os textos bíblicos como pedagogias que incorporam a lógica de dominação masculina. Minha análise concentra-se nas "pedagogias do patriarcado", que incluem as interpretações bíblicas distorcidas, construções sociais de masculinidade e feminilidade, e a objetificação dos corpos femininos e contra-hegemônicos. Tais pedagogias por se encontrarem no campo do sagrado se apresentam como simulacros do bem, o que as tornam socialmente aceitas e instrumentos de disseminação e perpetuação da violência encoberta presente na cultura do estupro e da pedofilia O texto examina a violência doméstica e sexual, abordando temas como o estupro coletivo, a misoginia e o abuso sexual infantil, inclusive na pornografia. No sentido de pensar o centro da questão apresento a alegoria bíblica do crime de Onã, o homem que foi punido com a morte pelo delito de desperdiçar seu sêmen. A pesquisa embasada na análise de conteúdo proposta por Bardin adota uma abordagem multidisciplinar para discutir a perpetuação da violência de gênero e a apropriação dos corpos ancorando-se fundamentalmente nos campos da psicanálise e dos estudos sociológicos culturais. A relevância do estudo se baseia no que não é posto em jogo pela sociedade: por que os homens engravidam mulheres com a clara intenção de abandoná-las? Por que não são responsabilizados judicialmente pelo aborto masculino que diz respeito às cicatrizes emocionais de crianças abandonadas, sem o nome do pai no registro de nascimento e mulheres em situação de escassez financeira pela sobrecarga de criar seus filhos sozinhas? Stoltenberg apresenta a mitologia do feto como pênis, que é a noção de que o feto é uma pessoa, o que equivale dizer que seus direitos civis superam os de sua hospedeira. Uma forma de expressar que a matéria fetal tem valor que só o tecido peniano pode conferir. A barriga inchada da mulher grávida demonstra publicamente a virilidade reprodutiva do homem, cujo fluido foi depositado no interior da mulher e sua semente vingou. Abortar um feto seria o mesmo que cortar o próprio pênis. Pelo fato de o feto ser percebido com caráter fálico, sua chamada vida é muito valorizada, enquanto a vida real da mulher é inútil e invisível, já que ela não pode reivindicar potencialidade fálica. Os homens temem que, se suas mães realmente tivessem uma escolha, eles poderiam não ter nascido. Partindo desse liame entre psicanálise e cultura, trago o aporte de Donald Winnicott, que apresenta o conceito de experiência cultural que inclui os mitos da história, o pensamento filosófico e o manejo de grupo e da religião, conceito que nos ajuda a pensar o porquê da naturalização da violência de gênero que se sustenta na lógica misógina do patriarcado.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 5 - Corpo Histórico e Antropológico