A devastação nas relações mãe e filha na obra Um amor incômodo, de Elena Ferrante
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18569108Resumo
A literatura constitui-se como um espaço de disputa e problematização de representações sociais historicamente instituídas (Candido, 2011). Ao encontrar-se com a psicanálise, manifestam-se arranjos acerca da feminilidade e suas contradições, possibilitando um questionamento dos papéis sociais limitadores atribuídos às mulheres no que diz respeito à maternidade (Iaconelli, 2023). O objetivo desta pesquisa foi identificar e sistematizar, na obra Um amor incômodo (2017), de Elena Ferrante, como aparece o conceito psicanalítico de devastação (Lacan, 1992) nas relações mãe e filha, para analisar a complexidade deste laço, marcado por ambivalência, identificação e ruptura. Por meio da problematização de representações normativas da maternidade, a obra descreve relações maternas que se distanciam da hegemonia, desconstruindo estereótipos que reforcem a naturalização da maternidade como um destino inescapável para as mulheres. A metodologia é qualitativa (Sampieri; Collado; Lucio, 2006), baseando-se no Estado da arte (Soares, 1989). Em um primeiro momento, foi realizada uma revisão integrativa de literatura através das bases de dados CAPES, Google Scholar e SciELO, utilizando os descritores “Devastação”, “Relação mãe e filha”, “Psicanálise”, “Elena Ferrante” e “Literatura”, a partir dos seguintes critérios de inclusão: (a) artigos, dissertações e teses publicados em português, entre janeiro de 2014 e dezembro de 2024; (b) estudos que discutam as relações mãe-filha a partir do conceito de devastação. Em um segundo momento, realizou-se a leitura sistemática dos textos freudianos e lacanianos selecionados, submetendo-os à Análise de Conteúdo de Bardin (2016), assim como a leitura flutuante da obra Um amor incômodo. Nesta, foram eleitos sintagmas que se relacionam ao conceito lacaniano de devastação para a construção de categorias de análise que serão aplicadas às relações mãe e filha exploradas na obra. Os resultados da revisão integrativa da literatura apresentaram 35 trabalhos, sendo 25 artigos, 8 dissertações e 2 teses. Estes foram registrados de maneira a descrever os trabalhos selecionados, com um enfoque nos eixos temáticos: (a) devastação e (b) maternidade. Em vista da leitura do material, emergiram as seguintes categorias de análise: (1) A devastação feminina nas relações mãe e filha: pesquisas sobre o vínculo mãe-filha moldado pelo conflito entre identificação e repulsa; (2) O mito do amor materno: estudos que discutem a maternidade e contestam a ideia de feminilidade atrelada apenas à capacidade de procriação; (3) O questionamento dos papéis sociais das mulheres: escritos que partem da valorização da diversidade das experiências femininas no combate a papéis sociais limitantes; (4) A escrita na construção de subjetividades femininas: trabalhos sobre as vivências de resistência do feminino corporificadas no registro escrito como uma forma de resistência. Os resultados parciais da pesquisa demonstram que os estudos sobre a temática da devastação nas relações mãe e filha ainda são escassos. A investigação mostra-se valorosa ao usar da psicanálise enquanto uma potência transformadora, com o intuito de questionar estruturas sociais misóginas e buscando dar voz a experiências femininas que não se resumem à maternidade. Nesse sentido, a obra Um amor incômodo oferece um olhar próprio sobre o laço mãe-filha, subvertendo o lugar de sujeição que foi imposto estruturalmente às mulheres.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
A devastação nas relações mãe e filha na obra Um amor incômodo, de Elena Ferrante. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569108