A sub-representação da mulher no campo político: o corpo feminino como território político e de resistência.

Autores

  • MARIANA MENDONÇA DE ALMEIDA Autor
  • Anamaria Silva Neves Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18569119

Resumo

A baixa representatividade feminina na política brasileira é problema estrutural que revela desigualdades históricas. Segundo a ONU Mulheres (2025), apenas 18,1% da Câmara dos Deputados e 19,8% do Senado são compostos por mulheres, índices que colocam o Brasil entre os piores desempenhos globais em termos de participação parlamentar. Isso evidencia o déficit quantitativo e o processo de exclusão histórica em que o corpo feminino foi sistematicamente silenciado e alijado da pólis. Se política e poder são dimensões indissociáveis, propõe-se refletir a articulação entre a mulher, a política e as formas históricas de exercício do poder. O espaço político, território da razão, restringiu historicamente a presença do corpo feminino, reduzindo-o a um lugar de silêncio e subordinação. Até o século XVIII, a concepção de humanidade identificava-se ao homem, relegando a mulher à condição de variação imperfeita desse modelo. Assim, revela-se o impasse baseado no cógito: se não era permitido a mulher pensar, logo a ela era negada a possibilidade do existir. A história revela o protagonismo de mulheres que subverteram a lógica excludente e se inseriram no campo político através da força da palavra. Enheduana (XXIII a.C.) é reconhecida como a primeira narradora e autora da História. Sua obra revela uma mulher que, antes da formalização da política como campo instituído, inscreveu na palavra politizada, os conflitos que atravessavam sua condição singular de mulher, se posicionando sobre os embates de poder de sua época. Rompe com a lógica do anonimato, abrindo espaço inédito de enunciação, instaurando a possibilidade de inscrição simbólica das mulheres no campo da linguagem e da história. Christine de Pizan, através da querelle des femmes, denunciou as hierarquias de gênero, exigiu educação para as mulheres e a releitura crítica dos textos tradicionais para elaboração histórica que incluísse a narrativa feminina como palavra legítima. Na Revolução Francesa, a Marcha das Mulheres a Versalhes revela a potência coletiva do corpo feminino como ator político. Contudo, apesar da luta de Olympe de Gouges, o reconhecimento institucional da cidadania feminina foi negado, perpetuando sua condição de exterioridade à pólis. O percurso de figuras históricas revela que a luta feminina não buscava cargos institucionais e correspondia à reivindicação da inscrição simbólica do corpo feminino no campo da linguagem e do poder. Metodologicamente, a pesquisa se estrutura como teórico-bibliográfica. A investigação articula análise histórica e leitura crítica, considerando o corpo como operador simbólico para compreender os mecanismos de silenciamento e resistência, bem como portador da subversão da palavra feminina na pólis. Conclui-se que a marginalização feminina não é apenas um problema institucional. Está enraizada em tradições históricas que associaram o corpo feminino à exclusão, à violência simbólica e à invisibilidade política. A emergência de vozes femininas, ainda que minoritárias, evidencia a potência da corporeidade como território de resistência frente à necropolítica. Pensar o corpo feminino como político significa reconhecê-lo como lugar de enunciação e contestação. Ao interrogar os impasses do desejo e da palavra, podemos tensionar os efeitos históricos de apagamento, destacando perspectivas que legitimem a presença feminina como sujeito de pensamento e ação.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades

Como Citar

A sub-representação da mulher no campo político: o corpo feminino como território político e de resistência. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569119