Ciborgues agonizantes: o limite da influência da cibernética em ciências humanas

Autores

  • Nelson Job Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568239

Resumo

Com a emergência de um mundo cada vez mais atravessado pela Tecnologia da Informação (TI), passando pelas redes sociais, games, streamings e a onipresença do algoritmo em vários aspectos da vida, norteando desde crédito bancário até diagnósticos, e sobretudo, exercendo guerras híbridas e cognitivas, urge rever a bibliografia das ciências humanas, incluindo a psicanálise, intensamente influenciada pela então cibernética e seus desdobramentos. Para tanto, o primeiro passo é apreender, de um lado, a influência da obra do antropólogo e semiólogo inglês Gregory Bateson. Ele foi o principal arquiteto da relação entre cibernética e ciências humanas, constituindo sua antropologia e sua clínica, incluindo seu famoso conceito de "duplo vínculo". Bateson trabalhou para o governo norte-americano durante a Segunda Guerra, entre outras façanhas, realizando o que hoje poderíamos chamar de "fake news" no Japão em prol dos Aliados. Ele assinaria um documento reforçando a necessidade de os Estados Unidos manterem seus serviços de espionagem mesmo no pós-guerra, o que contribui para a criação da Central Intelligence Agency. Bateson, na década de 1950, já falava sobre a importância de associar seu conceito de cismogênese - resultante de sua etnografia que mostrou como o povo iatmul, na Nova Guiné - com a cibernética em prol de ações políticas: "o antropólogo distingue duas formas de cismogênese, a complementar, em que grupos mantêm comportamentos antagônicos em relação aos outros indivíduos, e a simétrica, em que ambos os grupos possuem os mesmos comportamentos, mas se distinguem politicamente". Tal proposta foi largamente utilizada nas chamadas guerras híbridas, "um tipo de conflito que evita o uso de armas, utilizando diplomatas, agentes infiltrados, robôs que manipulam os algoritmos de redes sociais e mídias digitais em geral, com o objetivo de direcionar a opinião pública, dividindo um país, estimulando a emergência de bolhas que se constituem por cismogênese". A cibernética também influenciou o estruturalismo, seja pela apropriação do próprio Roman Jacobson, que já havia elaborado sua teoria estruturalista da linguagem antes do advento da cibernética, mas foi entusiasta da sua relação, abrindo o caminho para Lévi-Strauss o utilizar largamente. Por sua vez, o clínico Félix Guattari propôs substituir o conceito de "estrutura" por "máquina", obviamente muito entusiasmado com a cibernética, o que mais tarde culminou na esquizoanálise e sua proposta de "inconsciente maquínico", em sua obra conjunta com o filósofo Gilles Deleuze, "O anti-Édipo". Mais tarde, o conceito de "rizoma", também proposto por Deleuze e Guattari, agora em "Mil platôs", também foi inspirado pela cibernética. Agora, visto o problema que a cibernética e sua faceta atual, a TI, trazem para a contemporaneidade, é o momento de rever criticamente a influência da cibernética nas ciências humanas e apontar para linhas de fuga que constituam um corpo que possa se agenciar com a máquina, mas de modo mais crítico e saudável.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 2 - Corpo Estético e Tecnológico

Como Citar

Ciborgues agonizantes: o limite da influência da cibernética em ciências humanas. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568239