Entre Iroko e Exu: a clínica como gira de travessias e desobediências

Autores

  • Camila Ferreira Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568243

Resumo

Este artigo apresenta uma reflexão aprofundada sobre a experiência na clínica social e política Ilê Axé Morada Terapêutica, explorando a complexa teia de relações entre a prática terapêutica, os saberes ancestrais e os atravessamentos socioculturais que moldam a subjetividade. A autora propõe uma abordagem que transcende a tradicional dicotomia entre mente e corpo, razão e emoção, defendendo a importância de uma escuta sensível e ressonante, da intuição e da capacidade de sentir o mundo através de outros sentidos (cosmosensação e cosmopercepção) para acolher a multiplicidade de experiências e narrativas que emergem no encontro analítico. O processo terapêutico é compreendido como uma intrincada jornada labiríntica, onde o sujeito encontra ecos de memórias, dores, conflitos e crises que se entrelaçam no tempo. Essa imersão convoca uma percepção de temporalidade alinhada a Kairós (o tempo qualitativo e oportuno para a realização do sentido) e a Iroko (a ancestralidade que enraíza o processo no contínuo histórico e existencial, oferecendo um senso de pertencimento). É nessa desordem aparente, onde os fios da vivência se emaranham, que a clínica se propõe a atuar, guiando o olhar para além do mensurável e do cronológico. No cerne dessa abordagem, valoriza-se a “escrevivência”, conceito cunhado por Conceição Evaristo, que ressalta a importância das experiências vividas como forma de conhecimento e expressão da identidade. A clínica é concebida como um espaço onde as histórias revelam camadas profundas do ser, possibilitando a decifração dos afetos como forças que habitam o indivíduo, que influenciam sua percepção do mundo, das relações interpessoais, e o seu modo de sentir e agir. A metáfora da travessia marítima ilustra o percurso clínico em que o sujeito embarca em uma “nau egóica” para explorar o mar do inconsciente, buscando tomar consciência dos complexos e das dinâmicas sociais que o atravessam. Na vastidão do inconsciente coletivo e cultural, os arquétipos – como substrato de vivências da humanidade – manifestam-se como mananciais de energia que perpassam e impactam profundamente a constituição e as experiências do ser. A cultura ocidental, moldada pelo capitalismo e suas ramificações (branquitude, racismo, outras violências) e marcada pela racionalidade cartesiana, estabelece uma estrutura que silencia e deslegitima modos plurais de existência e conhecimento, culminando em adoecimento. A clínica é, portanto, proposta como um vital espaço de resistência e aquilombamento, onde o sujeito, em comunidade, pode se reconectar com sua própria história e potência, tecendo um processo de descolonização do ser. As expressões culturais afro-diaspóricas são apresentadas como uma tecnologia ancestral de apoio terapêutico, como ilustrado pelo caso de J., uma analisanda que busca reapropriar-se do seu corpo como fonte de axé e prazer e uma nova perspectiva de feminilidade através da figura simbólica e transformadora da Pombagira. Conclui-se que a clínica tem um papel político fundamental na sociedade contemporânea. A exuística, como prática clínica inspirada na figura do orixá Exu, emerge como uma forma de subverter a lógica dominante, promover o diálogo e facilitar o ir além do limiar conhecido, possibilitando a reinvenção do tempo-espaço existencial e a manifestação da potência.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades

Como Citar

Entre Iroko e Exu: a clínica como gira de travessias e desobediências. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568243