Na encruzilhada da carne e do vento: Pomba Gira, memória negra e os ecos de um passado que não passa

Autores

  • Clodoaldo Matias da Silva Autor
  • Maria Eduarda Moraes da Silva Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568297

Resumo

Este artigo investiga como corpos negros periféricos de Manaus-AM., atravessados por interseções com identidades trans, LGBTQIAPN+, trajetórias migrantes e deficiências, convertem-se em territórios de resistência frente às necropolíticas que administram o viver e o morrer nas franjas urbanas. A figura ritual de Pomba Gira é tomada como operador epistêmico capaz de condensar, em cheiro, riso e giro, as memórias de violência racial e de gênero que conformam a experiência desses sujeitos. Partindo da hipótese de que o corpo negro periférico funciona como arquivo sensorial insurgente, o estudo demonstra que a performance ritual, ao mesmo tempo em que denuncia a produção estatal de morte, coreografa futuros de liberdade e reencantamento do desejo. A pesquisa adota abordagem qualitativa combinando etnografia sensorial (registros audiovisuais, mapas olfativos e notas táteis) em terreiros e ruas das zonas Leste e Norte de Manaus (2023-2025), entrevistas semiestruturadas com lideranças religiosas, ativistas e terapeutas psicanalíticos de base comunitária, além de revisão crítica de literatura sobre necropolítica, trauma racial e epistemologias afro-diaspóricas. A psicanálise, aqui acionada como ferramenta de escuta radical, lê nos sintomas corporais — tremores, apagões de memória, dores autoimunes — os reflexos da violência estrutural, propondo dispositivos coletivos de elaboração do luto. Já a lógica da encruzilhada, inerente ao culto de Exu e Pomba Gira, serve de matriz teórico-metodológica para suspender a linearidade temporal e articular passado escravista, presente policial e porvir pluriversal de reexistência. Os resultados apontam três potências políticas emergentes. Primeira: círculos itinerantes de escuta psicanalítica em periferias, coordenados por terapeutas negros e trans, que transformam o luto racial em pedagogia do cuidado mútuo. Segunda: ações artísticas de rua — performances, murais olfativos e rodas de dança — que publicizam as violências policiais e geram renda criativa, restituindo a esses corpos o direito de ocupar o espaço urbano com festa e denúncia. Terceira: protocolos intersetoriais de acessibilidade que cruzam ergonomia, saberes de terreiro e direitos humanos, garantindo inserção laboral de pessoas com deficiência e acolhimento de migrantes racializados. Em todos os casos, o corpus sensorial da gira — perfumes, cantigas, batidas de atabaque — funciona como gramática política de reivindicação de vida digna. Conclui-se que reconhecer o corpo negro periférico como arquivo vivo exige redes transversais de cultura, saúde e pesquisa que preservem a memória sensorial da encruzilhada. Recomenda-se a institucionalização de observatórios de dados sensoriais para registrar ruídos, odores e atmosferas gerados por celebrações de rua, transformando tais indicadores em métricas de vitalidade comunitária a orientar políticas antirracistas. Propõe-se ainda incluir nos currículos de formação em saúde, serviço social e artes módulos sobre corporeidades dissidentes e saberes de terreiro, de modo a formar profissionais sensíveis às múltiplas violências que atravessam esses corpos. Ao girar entre a rua e o altar, Pomba Gira revela que a luta contra a necropolítica se faz em cheiro, som e riso — e que todo arquivo que ignore essa vibração continuará reproduzindo o silêncio colonial que insiste em controlar, disciplinar e matar.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades

Como Citar

Na encruzilhada da carne e do vento: Pomba Gira, memória negra e os ecos de um passado que não passa. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568297