Corpo estrangeiro: o francês como imposição linguística e exclusão corporal na escola haitiana

Autores

  • Maxo St Victor Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568313

Resumo

Este resumo investiga a imposição do francês como língua de instrução no sistema educacional haitiano e suas implicações na constituição subjetiva e corporal dos estudantes. A pesquisa parte da constatação de que a centralidade do francês no ensino, em prejuízo do crioulo haitiano, opera como uma barreira pedagógica e um instrumento de exclusão simbólica e corporal. O contexto histórico e sociopolítico do Haiti revela uma continuidade das estruturas coloniais no campo educacional, evidenciada na manutenção de uma norma linguística eurocentrada que deslegitima os saberes, linguagens e expressões corporais oriundas da cultura popular haitiana. Essa dinâmica torna-se particularmente relevante ao se observar os efeitos subjetivos e pedagógicos desse modelo sobre os estudantes, cuja identidade linguística é sistematicamente negada. O objetivo geral da pesquisa é analisar de que forma a política linguística educacional haitiana contribui para a marginalização do corpo cultural dos estudantes, ao impor o francês como língua hegemônica no espaço escolar. A investigação parte da hipótese de que essa imposição não apenas compromete os processos de aprendizagem, mas também opera como uma forma de controle sobre a subjetividade e a corporeidade dos alunos, ao associar legitimidade intelectual e comportamental ao domínio de um idioma que lhes é culturalmente estranho. A metodologia adotada é qualitativa, com base em análise crítica de documentos oficiais da política educacional haitiana e de livros didáticos utilizados no ensino fundamental. Esses materiais foram examinados à luz dos referenciais teóricos de Frantz Fanon, Paulo Freire e Michel Foucault, cujas contribuições permitiram compreender a linguagem como tecnologia de dominação e o corpo como território de disputa simbólica. A análise documental teve como foco identificar a presença e a função do francês e do crioulo nos textos escolares, bem como as representações corporais associadas a cada idioma. Os resultados evidenciam que o francês atua como um “corpo estranho” no ambiente escolar haitiano: sua imposição silencia a expressão natural dos estudantes, reprime sua linguagem corporal e os força a adotar posturas, vocabulários e formas de se comportar alheias à sua experiência cotidiana. O crioulo, por sua vez, é relegado a espaços marginais ou ausente, sendo raramente reconhecido como língua legítima do saber. Essa configuração reforça um modelo de educação que associa o domínio do francês à civilidade, ao sucesso e à capacidade intelectual, ao passo que estigmatiza o corpo que fala crioulo como bruto, indisciplinado ou inadequado. Conclui-se que a política linguística escolar haitiana não é neutra: ela reforça desigualdades históricas e culturais, e atua diretamente sobre os corpos e subjetividades dos estudantes. Ao mesmo tempo, o estudo identificou práticas de resistência cotidiana, nas quais os estudantes afirmam sua identidade por meio do uso do crioulo e de expressões culturais insurgentes. A pesquisa contribui, assim, para os debates sobre educação decolonial e políticas linguísticas inclusivas, defendendo a valorização da língua materna como fundamento de uma pedagogia libertadora e corporeificada.

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Publicado

2025-12-15

Como Citar

Corpo estrangeiro: o francês como imposição linguística e exclusão corporal na escola haitiana. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568313