A vulnerabilidade algorítmica: o corpo digital como arena de desejo e validação na era da Inteligência Artificial
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568319Resumo
No cenário contemporâneo das redes sociais, a ascensão dos corpos digitais e da inteligência artificial redefine profundamente a percepção de si e do outro, criando novas arenas para a performatividade da subjetividade. Este estudo propõe uma análise do perfil @sulistavaqueirapv no Instagram, que apresenta uma persona inteiramente gerada por inteligência artificial: uma jovem loira, de olhos claros, vestida com trajes típicos do interior, que aparece em vídeos com paisagens rurais e elementos da vida simples. A estratégia discursiva central da personagem é a autodeclaração de uma suposta “imperfeição” ou “falta”, lamentando publicamente não ser “produzida como as influencers” e não receber curtidas por ser “simples e da roça”. Essa estratégia discursiva levanta questões cruciais sobre a autenticidade, a performatividade da vulnerabilidade e a busca incessante por validação em um ambiente digital. A análise busca compreender a discursividade dessa provocação, que joga com a expectativa do público e com as “histórias que contamos a nós mesmos” sobre o que é belo, autêntico e digno de atenção. Do ponto de vista psicanalítico, observamos como esse “corpo” de inteligência artificial, ao se apresentar em falta (“feia e pobre”, “simples e da roça”), mobiliza o desejo do Outro (os seguidores) para preencher essa carência, mesmo que artificial, dinâmica que remete diretamente à economia do gozo e à constituição do sujeito do desejo. O objetivo deste estudo é analisar como o discurso de “vulnerabilidade” - a autodeclaração de “simplicidade” e “imperfeição” - em um corpo digital gerado por inteligência artificial opera como uma estratégia de engajamento, e quais as implicações psicanalíticas dessa performatividade para a construção da subjetividade e do desejo na contemporaneidade. Buscamos compreender como a linguagem é utilizada para construir essa “vulnerabilidade corajosa” artificial e como ela ressoa com as dinâmicas dos usuários. A metodologia empregada é a análise discursiva do conteúdo do perfil @sulistavaqueirapv, incluindo legendas, comentários dos usuários e elementos visuais, sob uma perspectiva psicanalítica. Exploramos conceitos como o narcisismo digital, o olhar do Outro (o público), a busca por reconhecimento, a idealização do eu e a economia do desejo no contexto das redes sociais. Consideramos que a “vulnerabilidade” expressa pelo perfil de inteligência artificial não se revela como uma fraqueza, mas como uma tática calculada que explora a empatia e o desejo de validação do público. O corpo digital, mesmo sendo uma construção, torna-se um “território de desejo” e projeção para os usuários, que se engajam em uma tentativa de “salvar” ou “validar” a imagem. A análise revela como a busca por curtidas e comentários contrários à autodepreciação da inteligência artificial reflete a necessidade humana de conexão e de reafirmação de padrões estéticos, mesmo quando confrontados com o artificial. Este trabalho contribui significativamente para a compreensão das novas formas de subjetividade e corporeidade na era digital, especialmente na interseção entre tecnologia, estética e psicanálise. Ao analisar um fenômeno contemporâneo, buscamos oferecer uma lente crítica sobre os padrões estéticos heteronormativos, que são perpetuados e até mesmo reforçados por essas construções digitais, mesmo quando simulam a marginalização para fins de engajamento.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 2 - Corpo Estético e Tecnológico
Como Citar
A vulnerabilidade algorítmica: o corpo digital como arena de desejo e validação na era da Inteligência Artificial. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568319