Corpo sensorial e subjetividade plural: travessias invisíveis do desejo

Autores

  • Najla Gergi Krouchane Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568331

Resumo

Desde as primeiras vivências sensoriais, o corpo está em constante movimento e transformação. Ele não é apenas uma estrutura biológica, mas um território simbólico e afetivo, entrelaçado à subjetividade do sujeito. A psicanalista Françoise Dolto contribui significativamente para essa compreensão ao propor o cruzamento entre o esquema corporal — percepção funcional e biológica — e a imagem inconsciente do corpo, uma construção psíquica que emerge das experiências sensoriais, afetivas e relacionais. Dolto afirma que essa imagem é inicialmente sensorial, marcada pelos órgãos dos sentidos. Para ela, as marcas sensoriais são significantes, ou seja, inscrições de linguagem que antecedem a linguagem verbal. A vida intrauterina e os primeiros tempos da vida extrauterina são palcos de aquisições sensoriais significantes, que estruturam a imagem inconsciente do corpo antes mesmo da palavra. Essas marcas são transmitidas pelo Outro — geralmente a figura materna — e constituem o sujeito em sua dimensão desejante. A autora descreve três fases dessa imagem: imagem de base, imagem funcional e imagem erógena. A imagem de base corresponde à estrutura psíquica mais primitiva e está associada à unidade e coesão corporal vivenciadas no início da vida. A imagem funcional surge com a mobilidade e a descoberta das capacidades corporais, permitindo que o corpo seja reconhecido como agente de ação. A imagem erógena está relacionada à experiência libidinal, ao prazer e ao desprazer vinculados às zonas erógenas e ao contato com o outro. Essas fases se articulam com as chamadas castrações simbolígenas, operações simbólicas que possibilitam renúncias pulsionais em nome da linguagem, da cultura e do desejo — fundamentais para a estruturação do psiquismo. Cada etapa representa uma reorganização da imagem corporal, revelando que o corpo é um lugar de inscrição do desejo, da linguagem e da história. Ao abordar as posições libidinais, Dolto distingue entre os tipos masculino e feminino, mas desvincula essas posições da lógica binária de gênero. Ela enfatiza a posição subjetiva, permitindo pensar o corpo e o desejo para além das categorias fixas de masculino e feminino. Nesse sentido, as primeiras marcas psíquicas, anteriores ao complexo de Édipo — momento em que a sexualidade se organiza simbolicamente — são agenéricas, ou seja, não se referem a uma lógica binária. Essas marcas inauguram a possibilidade de pensar as diversas expressões de gênero e sexualidade, evidenciando o declínio do binarismo clássico e a emergência de subjetividades plurais. A escuta psicanalítica contemporânea, especialmente com sujeitos LGBTQIAPN+, se beneficia das formulações de Dolto ao reconhecer que o corpo vivido muitas vezes entra em conflito com o corpo reconhecido socialmente. A heteronormatividade impõe padrões corporais e de expressão que podem deslegitimar vivências singulares, afetando a construção simbólica do corpo. Essa perspectiva permite compreender que a subjetividade da diversidade de expressões de gênero e sexualidade não se reduz à anatomia, mas se estrutura a partir de marcas sensoriais, afetivas e simbólicas que desafiam o binarismo e abrem espaço para diversas formas de existir.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

Corpo sensorial e subjetividade plural: travessias invisíveis do desejo. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568331