Onde se dançam os corpos marginais? o Baile da Paz, o resgate dos Bailes de Corredor e a valorização das expressões culturais periféricas no Recife (2015-2025)
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568362Resumo
O exercício da corporeidade implicou, ao longo da história humana, na reafirmação da existência por meio das práticas culturais e dos costumes forjados nas relações sociais, os quais expressam uma dimensão simbólica do “ser” e correspondem ao caráter de definição das identidades, sejam elas individuais ou coletivas (Le Breton, 2011, p. 18). No entanto, observa-se que, na sistematização dessas expressões, alguns corpos (em sua maioria negros e periféricos) são ocultados em detrimento de outros, sendo dissociados da existência padronizada que configura a hegemonia cultural ou, ainda, subalternizados em suas representações. Por sua vez, esses corpos são frequentemente reduzidos a uma dimensão utilitária da força de trabalho, associados à produção acumulativa de bens econômicos destinados às elites (González, 2020, p. 27). Invalida-se, desse modo, qualquer forma de expressão cultural a partir da existência desses corpos. Posta essa dimensão, a presente pesquisa propõe-se a analisar o Baile da Paz, realizado no Recife, como um resgate direto das relações culturais periféricas. O movimento configura-se como uma iniciativa inspirada nos antigos “Bailes de Corredor” e/ou de “Galera”, nos quais se reunia a juventude periférica e se ensejava, a partir de uma dimensão lúdica, uma performance de confronto físico entre grupos rivais locais, ao som de “paredões” que ecoavam e inflamavam a disputa ao seu “alemão” (Neves, 2018, p. 71). Duramente reprimidos pelo aparato jurídico-policial entre a década de 1990 e o início dos anos 2000 (Cymrot, 2012, p. 177), esses encontros têm sua memória cultural retomada e reafirmada no presente, como forma de contornar determinações impositivas sobre o que se compreende como cultura. Na esteira desse movimento, o objetivo central deste trabalho é dimensionar a importância do Baile da Paz, iniciado em 2015 no Recife, enquanto espaço de reafirmação da identidade de sujeitos periféricos da cidade, de forma a potencializar suas práticas, danças e expressões corporais tangíveis. Levando em consideração que as reflexões da pesquisa estão adstritas à dimensão cultural e fundamentadas em uma base dialética, a metodologia adotada concentrou-se na análise de fontes secundárias que se enquadram na História do Tempo Presente, como matérias jornalísticas com considerações sobre o Baile da Paz, registros visuais (a exemplo de flyers de divulgação) e conteúdos digitais produzidos pelo próprio evento, referentes ao período de 2015 a 2025. Nesse sentido, chegou-se aos seguintes resultados: assim como nos antigos Bailes de Corredor, as comunidades ainda se organizam em “bondes” ou “galeras”, preservando o sentido original do movimento. No entanto, este é repaginado, passando a propagar o ideal de paz e solidariedade em conexão com todas as comunidades que participam dos bailes, e não mais aflorando o princípio do ethos guerreiro (Cecchetto, 1997) como premissa fundamental dos encontros. Outrossim, identificaram-se ações assistenciais da organização voltadas às comunidades, reforçando um caráter não apenas de suporte cultural, mas também social. Os achados desta pesquisa evidenciam, portanto, que o Baile da Paz (2015-2025) não apenas resgata elementos históricos dos antigos Bailes de Corredor, mas também se consolida como um espaço de resistência, (re)afirmação identitária e assistência social das comunidades periféricas do Recife.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades
Como Citar
Onde se dançam os corpos marginais? o Baile da Paz, o resgate dos Bailes de Corredor e a valorização das expressões culturais periféricas no Recife (2015-2025). (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568362