Nós, Travestis: Corpos em Movimento e a Cultura como Disputa Simbólica

Autores

  • Sara Wagner York Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568178

Resumo

Nós, travestis, emergimos como corpos históricos em constante movimento. Não apenas nos deslocamos no espaço social, mas tensionamos o tempo, a linguagem, o simbólico. Em nossa existência cotidiana, inscrevemos marcas de resistência e de reinvenção diante das violências culturais, políticas e subjetivas que tentam nos reduzir à margem ou ao silêncio. Nossa travestilidade não é um dado biológico, tampouco um desvio de norma; ela é cultura — no sentido antropológico mais profundo: um sistema de significados compartilhados, uma prática simbólica, uma gramática encarnada. A cultura, enquanto construção social, é o terreno onde se disputa o que é aceitável, o que é nomeável, o que é visível. Nesse campo, o corpo travesti se faz ruptura e afirmação. A partir da psicanálise, compreendemos que o sujeito se constitui na linguagem, e é precisamente nesse campo simbólico que lutamos para existir. Somos nomeadas, muitas vezes, a partir de lugares de abjeção, e é por isso que reivindicar a linguagem – nomear-nos por nós mesmas – é gesto ético, político e antropológico. O etnocentrismo, que julga e mede o outro a partir de si, encontra paralelo no ciscentrismo e no binarismo de gênero. Contra essa lógica, propomos o relativismo cultural e epistemológico: entender nossos corpos, nossas práticas e identidades em seus próprios termos. A travestilidade não precisa ser traduzida pela lente da cisgeneridade – ela é uma cultura própria, um sistema de parentesco, um modo de vida e de produção simbólica que desafia as normatividades. A identidade travesti é performativa e histórica. Ela não é uma essência, mas um processo em constante negociação entre desejo, reconhecimento e resistência. Atravessamos o olhar social, muitas vezes patologizante, mas devolvemos esse olhar com uma ética de si que afirma nossas existências como legítimas e inteiras. A psicanálise nos ajuda a entender como o Outro nos constitui, mas também como podemos ressignificar esse Outro – não para destruí-lo, mas para deslocar seus lugares de poder. Falamos também de parentesco. Criamos famílias outras, laços de sangue simbólico, irmandades que desafiam o modelo hegemônico de organização social. Nossos vínculos são forjados na partilha da dor, da luta e da alegria de sermos quem somos. São modos de parentesco travesti que rompem com as normas do que é “família”, ampliando os limites do que é amor, cuidado e pertencimento. Por fim, não há como falar de corpos travestis sem falar de religião. Muitas de nós fomos expulsas dos templos, mas não da fé. Reconstruímos espiritualidades que nos acolhem, que fazem do sagrado uma experiência inclusiva. A religiosidade também é um campo de disputa simbólica, onde enfrentamos o uso político da fé para nos excluir, mas também onde encontramos forças para resistir. Este trabalho busca apresentar a travestilidade como experiência antropológica e psicanalítica complexa — um corpo em movimento que produz cultura, desafia o poder e reinventa a existência.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 5 - Corpo Histórico e Antropológico

Como Citar

Nós, Travestis: Corpos em Movimento e a Cultura como Disputa Simbólica. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568178