Clínica da cegueira e psicanálise: uma vida pelas margens.
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568442Resumo
Esta comunicação tem como propósito apresentar os resultados de um percurso clínico em psicanálise realizado com dez pacientes com deficiência visual, incluindo dois casos de cegueira congênita, com o objetivo de refletir sobre a vida que se constrói pelas margens e sobre os efeitos psíquicos que podem ser detectados a partir da escuta clínica. Nesse percurso, levantamos questões fundamentais: como se dá o processo de desenvolvimento psicossexual nesses pacientes segundo a teoria freudiana? O isolamento teria dificultado a vida relacional nesse processo? É possível identificar as estruturas psíquicas por meio da clínica da cegueira? Como se manifesta a percepção do Grande Outro lacaniano? De que modo se deu a relação com a mãe? Como se apresentam as descrições dos sonhos, especialmente nos casos de cegueira congênita? É mais difícil a interpretação dos sonhos em pessoas cegas? Qual a importância da vida sexual ativa para esses pacientes? Essas indagações, entre outras, serão debatidas a partir de vinhetas clínicas e da articulação com os conceitos freudianos sobre o desenvolvimento psicossexual e a interpretação dos sonhos. Um segundo eixo desta comunicação busca interrogar o conceito lacaniano de “Estádio do Espelho” à luz da clínica da cegueira, indagando seus limites e desdobramentos. Esse conceito, formulado por Lacan em 1936, descreve uma etapa decisiva no desenvolvimento psíquico do bebê, momento em que a criança, diante da imagem refletida, começa a reconhecer uma unidade de si mesma, experiência considerada fundante não apenas para a constituição da imagem corporal, mas também para a estruturação da subjetividade. Perguntamos, portanto, o que acontece quando tal processo se desenvolve sem a experiência visual direta, e se haveria maior ou menor dificuldade para se pensar o registro imaginário nesses casos, já que alguns desses sujeitos atravessaram essa etapa sem poder visualizar a si mesmos ou ao outro com quem se relacionavam. Tal reflexão dialoga com trabalhos contemporâneos, como o de Figueira (2023), em Psicanálise e pessoas com deficiência, que alerta para a presença de um “espelho perturbador” no contexto da educação inclusiva. Ao trazer a experiência clínica com pessoas cegas para o campo da teoria psicanalítica, pretende-se contribuir para o debate sobre a subjetividade constituída nas margens, ampliando os horizontes da escuta e da elaboração teórica.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades
Como Citar
Clínica da cegueira e psicanálise: uma vida pelas margens. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568442