Entre máscaras e memórias: Anastácia e a herança do silenciamento nas mulheres negras periféricas

Autores

  • MARIA SOLINEIDE OLIVEIRA ALENCAR Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568457

Resumo

Este resumo apresenta uma reflexão sobre a figura de Anastácia, mulher negra escravizada, marcada por intensas violências históricas e simbólicas. Tida como uma santa popular, mesmo sem canonização oficial, Anastácia emerge do imaginário coletivo como representação do sofrimento e da resistência de mulheres negras submetidas ao cativeiro, à tortura e ao silenciamento. O estudo parte da imagem de Anastácia — com o rosto coberto por uma máscara de ferro — para propor um paralelo com as condições contemporâneas das mulheres negras periféricas, que seguem sendo silenciadas por outras formas de máscara: o racismo estrutural, o machismo institucionalizado e a visibilização midiática e acadêmica. O objetivo geral é tensionar as construções sociais que separaram Anastácia da figura de Maria, mãe de Jesus, tida como símbolo de pureza, para refletir como o corpo negro feminino foi historicamente destituído de valor sagrado, mesmo quando atravessado por experiências de martírio. A metodologia utilizada é qualitativa, com base em revisão bibliográfica crítica interdisciplinar (história, feminismo negro, teologia popular e estudos culturais), amparada nas obras de Sueli Carneiro, Grada Kilomba, Djamila Ribeiro e Lélia Gonzalez, além da análise iconográfica de representações de Anastácia. Os resultados apontam que a santificação popular de Anastácia representa uma reconfiguração simbólica coletiva das experiências de dor e resistência de mulheres negras. Sua imagem se converte em território de memória e fé, ressignificando o sofrimento como força ancestral. Ao compararmos com a realidade das mulheres periféricas atuais, observa-se que o silenciamento e a exclusão continuam, embora agora travestidos de políticas públicas insuficientes, criminalização da pobreza e deslegitimação de suas vozes nos espaços de decisão. O reconhecimento de Anastácia como mártir é, portanto, também um gesto político, que reafirma a espiritualidade e a dignidade do corpo negro feminino como forma de insurgência. Conclui-se que, ao evocar Anastácia como figura de resistência e sacralidade periférica, este estudo contribui para repensar as fronteiras entre fé, política, memória e justiça social, promovendo um deslocamento epistemológico que recusa o silêncio imposto às mulheres negras, ontem e hoje.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 5 - Corpo Histórico e Antropológico

Como Citar

Entre máscaras e memórias: Anastácia e a herança do silenciamento nas mulheres negras periféricas. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568457