O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568180Resumo
O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas. Este trabalho parte da articulação entre cinema, psicanálise e crítica social a partir do corpo de Alice – a do tal país que disseram que era maravilha. Interessa-nos o corpo: o corpo de Alice na construção cinematográfica a partir de duas obras. A análise se constrói a partir do desenho animado da Disney (1951) e do filme Alice (1988), de Jan Švankmajer, ancorada em escuta psicanalítica e estética da linguagem cinematográfica. Ambos os filmes apontam para a violência sexual, na minha particular leitura. Para as mulheres, isso se impõe como normal e acontece prematuramente — se é que existe tempo certo para o corpo ser invadido. O desenho da Disney é, por inteiro, uma cena indigesta. A violência está disfarçada em humor e fantasia, e o público — nós — naturaliza, ri, segue e se diverte, ignorando o pedido de socorro. A denúncia está ali, mas não é ignorada. O autor foi muitas vezes posicionado no lugar da perversão. Mas, e se olharmos essa narrativa como sublimação de algo assistido ou vivido? E se Carol é Alice? No filme tcheco de Švankmajer, a denúncia é mais crua. Alice aqui é um corpo abandonado, periférico, marginal, vive num casebre miserável e, já nas primeiras cenas, recebe um tapa na mão. É uma Alice infeliz, isolada, frágil. Não há final feliz. Voltar para casa não é acolhimento, a casa não é segura — voltar é seguir no ciclo violento. O lar é o lugar da repetição do trauma. O corpo de Alice, nesse contexto, está longe da fantasia: é um corpo ferido, esvaziado de desejo, mas habitado por desejo. Nos interessa o corpo que cai. Já no início do texto original, Alice pensa: “Well!” thought Alice to herself. “After such a fall as this, I shall think nothing of tumbling down stairs!” — "Ora! pensou Alice consigo mesma. Depois de uma queda como esta, não vou achar nada demais cair das escadas!". Por que alguém se acostuma a cair das escadas? Isso não seria um sinal de alerta de um corpo violentado? A queda constante nos diz sobre repetição e trauma. A naturalização da queda como rotina é um indício da banalização da violência sobre esse corpo. E por que, afinal, ela para no telhado? O telhado como entre-lugar: nem dentro, nem fora; nem chão, nem céu. Um quase-fim. Corpo lançado entre mundos, suspenso no abismo. Este trabalho incluirá ainda referências ao texto original de Lewis Carroll e sua tradução em português. Não há a Alice do livro, ou a do filme, ou a do desenho. Há Alices, suas histórias. As referências se somam para narrar uma mesma dor: a da menina cujo corpo foi lançado à fantasia para esconder o que o mundo não quis ver.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568180