Enlutar o estranho, reencontrar o familiar: a clínica dos lutos parentais frente à homossexualidade

Autores

  • Paulo Ricardo Deboleto Oliveira Autor
  • Robson Mello Autor
  • Maria Virginia Filomena Cremasco Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568482

Resumo

A população homossexual, por não corresponder à matriz heteronormativa de desejo, tem seus corpos condenados à abjeção social. A presente pesquisa tem como objetivo compreender os aspectos psicodinâmicos da reação de mães e pais ao coming out de seus filhos e filhas. Trata-se de uma pesquisa qualitativa com construção de caso, na qual foram realizados atendimentos psicanalíticos com pais e mães que relataram sofrimento relacionado à homossexualidade de seus filhos e suas filhas. Propõe-se uma hipótese metapsicológica acerca desse sofrimento como não possibilidade de realização de um luto do ideal de filho. A construção de caso permite, à luz da transferência e da supervisão, compreender a lógica por meio da qual esse luto se articula à história singular das perdas de cada sujeito. Desde abril de 2025, foram atendidas duas mães e um pai. Os atendimentos permitiram identificar como a revelação da homossexualidade dos filhos opera como uma ruptura frente à idealização narcísica parental e às expectativas sociais. Nesse sentido, os filhos configuram-se como corpos estranhos (Unheimliche) que revelam a emergência de uma verdade que, sob os ditames de uma sociedade homofóbica, deveria permanecer oculta. O caráter abjeto que o desejo homossexual assume faz com que a queda do ideal suscite uma série de reações defensivas como uma primeira tentativa de elaboração frente à perda do objeto idealizado. Notou-se, durante o tratamento, que falar da estranheza frente à revelação do desejo homossexual dos filhos é permitir que aquilo que permaneceria oculto possa vir à tona e tenha sua simbolização possibilitada. Através da escuta clínica e das narrativas do sofrimento parental, foi possível notar como o luto do filho idealizado se enlaça a uma cadeia de lutos anteriores que remontam à história singular de cada sujeito. O luto com relação à homossexualidade, entretanto, é revestido de uma especificidade: a experiência de abjeção e monstruosidade à qual a população homossexual é submetida opera como barreira à elaboração do luto, à medida que só são enlutáveis as vidas consideradas inteligíveis. Nesse sentido, o processo de elaboração dessa perda convoca não somente um caráter pessoal, mas também perpassa por um âmbito histórico-político que convoca a memória coletiva de uma população que, historicamente, foi interditada de ser enlutada, como ocorreu de forma paradigmática durante a epidemia da AIDS. As narrativas dos pais se enlaçam a esse horizonte mais amplo, onde participam de seu sofrimento resquícios de uma violência social que recai sobre a população LGBTQIAPN+. A partir da narrativa e escuta daquilo que se perdeu, os pais e mães puderam elaborar a perda do ideal dos filhos, encontrando a possibilidade de reconciliação e reencontro com eles em sua sexualidade real. Esse movimento favoreceu o reconhecimento de sua singularidade e a construção de uma relação parental menos atravessada pela idealização. Conclui-se que os ideais parentais e sociais se relacionam estreitamente à elaboração dos lutos simbólicos na psicodinâmica da constituição do eu e suas relações, o que amplia a compreensão clínica e teórica sobre os lutos parentais frente à homossexualidade.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

Enlutar o estranho, reencontrar o familiar: a clínica dos lutos parentais frente à homossexualidade. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568482