A mulher negra e os deslocamentos das concepções psicanalíticas de feminino e feminilidade
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568523Resumo
O campo psicanalítico é marcado por certo movimento teórico em relação às questões que se apresentam no laço social. Lacan faz essa defesa quando afirma que nenhuma teoria se sustenta sem possuir no horizonte os problemas do seu tempo. Assim, desde Virgínia Bicudo e Neusa Santos Souza contamos com contribuições teóricas que mobilizam o debate racial com a teoria psicanalítica. Nesse sentido, a partir de uma construção teórica, objetivamos discutir neste trabalho alguns tensionamentos em torno dos conceitos de feminino e feminilidade em Freud e Lacan, com referenciais que articulam psicanálise e relações raciais. Freud ao formular a teoria do complexo de édipo e das saídas edípicas, consegue dissertar ao longo de sua obra como esse enlace ocorre para o menino, mas ao pensar na menina modifica suas construções a cada novo texto. Assim, nos últimos trabalhos que abordam a questão, assume que não conseguiu encontrar uma correspondência para a experiência da mulher, como construiu sobre o homem, e sugere que esse questionamento seja feito aos poetas e às próprias mulheres. Numa perspectiva lacaniana, se discute que Freud pouco avançou nesse debate, por ainda estar ancorado numa perspectiva biológica. Dessa forma, ao inserir uma correlação entre inconsciente e a linguagem, Lacan convoca o campo psicanalítico a se referir à cultura e campo social, e não mais a instinto e biologia. Além dessa torção, a linguagem também impõe uma nova forma de olhar para a cena edípica, justamente porque a castração se impõe para todos e portanto nenhuma figura possui o falo. Assim, cada sujeito vai construir uma forma de se relacionar com a falta via linguagem. Nesse sentido, Lacan postula a assimetria entre os sexos, e localiza o feminino e masculino enquanto posições, que não são restritas à experiência da mulher e do homem, mas se referenciam aos modos-de-gozo. O gozo todo se apoiaria nos elementos da cultura e o gozo não-todo se refere às experiências que não alcançam linguagem e saber. Lacan consegue ir além de Freud, mas ainda binariza o debate quando afirma que a mulher estaria do lado do gozo-não-todo, por não partir do falo enquanto referência. A partir dessa exposição, questionamos como a figura da mulher negra se localiza nessa cena, com os questionamentos de Sojourner Truth em E eu não sou uma mulher?. Em seu discurso, Sojourner faz uma recusa desses signos que seriam universais definidores de uma mulher, e portanto sua figura, e arriscamos dizer a figura da mulher negra, nos dá pistas para constatar o que se produz dessa experiência de estar à antítese do falo e da branquitude. Não se trata de garantir que a mulher negra seja incluída nos termos fálicos, mas escutar aquilo que ela produz a partir de sua experiência de diferença e alteridade. Portanto, compreendemos que a figura da mulher negra pode proporcionar uma abertura no campo psicanalítico tendo em vista sua dupla inscrição não-toda, para construirmos saídas para o problema da mulher na psicanálise.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
A mulher negra e os deslocamentos das concepções psicanalíticas de feminino e feminilidade. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568523