Em Busca de uma Psicanálise Negativa: a Periferia como Lugar de Escuta
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568537Resumo
Este artigo propõe fundamentos teóricos para uma psicanálise negativa, prática clínica orientada pela escuta periférica destinada a acolher o sofrimento psíquico das populações marginalizadas pela lógica excludente do neoliberalismo. Argumenta-se que a psicanálise tradicional, ao priorizar a adaptação do ego e uma teleologia de "cura" como síntese reconciliadora, torna-se conivente com a violência simbólica do projeto neoliberal. Para operar nas periferias sociais - território do não-idêntico (Adorno, 2005) e da contradição irresoluta - propõe-se uma clínica da não-reconciliação. A fundamentação articula a psicanálise lacaniana com a filosofia crítica adorniana e zizekiana. Da Dialética Negativa de Adorno, extrai-se a recusa da síntese harmoniosa, posicionando o sujeito periférico como encarnação do Real lacaniano - aquilo que resiste à simbolização. Esse Real manifesta-se concretamente na violência policial, no racismo estrutural e na precariedade material. A teoria da ideologia cínica de Žižek (1992) complementa esta análise, demonstrando que a adesão à ordem opressiva ocorre através do investimento libidinal (gozo) na própria submissão, sustentado pela fantasia neoliberal do "plus-de-jouir". Como resposta ética, recorre-se ao conceito de despossessão (Butler & Athanasiou, 2024; Safatle, 2016) como prática de "desprender-se", renunciando a identidades totalizantes para habitar a abertura do negativo. Na clínica, isso implica um analista que opera desde um lugar despossuído, com o setting expandido para intervenções comunitárias. A escuta periférica tem como objetivo não a adaptação, mas a travessia da fantasia ideológica e a elaboração singular de um sinthoma (Lacan, 2007). Como contribuição original, propõe-se uma clínica onde o espaço periférico é lido como texto sintomático, com significantes mestres materiais organizam as representações simbólicas e intervenções coletivas, capazes de decifrar modos de gozo social, acolher a diversidade e organizar o coletivo contra formas de exclusão. Conclui-se que a psicanálise negativa, ancorada na escuta periférica, reafirma o potencial emancipatório da psicanálise ao recusar a patologização da diferença e transformar o setting em espaço de crítica social. A experiência clínica organiza-se em três eixos: formação teórica, escuta coletiva e intervenções individuais, configurando uma prática anticolonial que possibilita a emergência de novas subjetividades.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades
Como Citar
Em Busca de uma Psicanálise Negativa: a Periferia como Lugar de Escuta. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568537