Corpo, cuidado e intersubjetividade: a institucionalização da velhice em uma perspectiva psicanalítica

Autores

  • José Francisco Teixeira Araujo Neto Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568569

Resumo

Diante do envelhecimento populacional e estilos de vida contemporâneos, a institucionalização de pessoas velhas, dependentes de cuidados, tem se tornado cada vez mais comum. Na perspectiva foucaultiana, tais instituições funcionam como dispositivos de regulação e controle dos corpos e subjetividades, podendo ser pensadas não só como cuidado, mas prática social que disciplina, homogeneíza e produz modos de subjetivação. Ainda, a pesquisa apoiou-se na concepção freudiana segundo a qual o eu é fundamentalmente corpóreo e constituído por identificações. Por isso, a perda de objetos investidos fragiliza tanto a economia libidinal quanto a imagem psíquica do eu-corpo, exigindo insistentes reconstruções simbólicas e imaginárias. Desse ponto, emerge a tensão entre o corpo desejante do sujeito e o regulado pela instituição, inviabilizando processos de ressignificação e novos investimentos. Sob essa ótica, utilizamos o método clínico psicanalítico para investigar a modalidade de cuidado “presença implicada”, em suas relações com a metapsicologia do luto, na subjetividade de residentes em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos na Região Metropolitana do Recife. Foram realizadas entrevistas não-estruturadas com duas residentes e duas cuidadoras, analisadas por meio da escuta flutuante e do campo transferencial, a partir do método interpretativo da Psicanálise. Os resultados revelaram que o cuidado idealizado como expressão de amor e doação, embora sustente psiquicamente as cuidadoras, aprisiona os velhos em posições subjetivas passivas. Nesse contexto, recusas corporais, como resistência ao banho ou à alimentação, frequentemente interpretadas como “birras”, podem ser compreendidas como atos de subjetivação; tentativas do corpo em afirmar desejo e diferença frente à homogeneização institucional. Na experiência de Vitória (nome fictício), a institucionalização somou-se às perdas – da casa, do ofício, da autonomia e de parte do corpo –, produzindo uma fragilidade do eu que evidencia a dimensão corpórea da subjetividade. Assim, o corpo envelhecido, atravessado pelo traumático, inscreve marcas simbólicas de perda, dependência e vulnerabilidade, exigindo incessantes reconstruções psíquicas. Por outro lado, o receio de Ana (nome fictício) em “dar trabalho” e de tornar-se “inutilizada”, conduziu a um modo de existir marcado pelo apagamento subjetivo: obediente às regras institucionais, conformou-se a um papel de submissão em que a cadeira de rodas, mais do que um recurso, simboliza a adaptação a uma posição sem espaço para desejo e transgressão. Ainda, a rigidez institucional e o excesso de presença implicada, tornam o cuidado repetitivo e vazio, transformando-o em máquina disciplinar que controla expressões e ritmos corporais, e inibe a vitalidade corpóreo-psíquica, ao obstruir o caminho para atividades criativas, essenciais para atravessar lutos e (re)inventar formas de ser. Os resultados apontaram que o cuidado institucional deve ser repensado além de sua dimensão operacional, pois não se limita à preservação do corpo fisiológico, mas possibilita uma existência com sentido, em que o envelhecer se torna processo simbólico de continuidade e transformação. Assim, a psicanálise escuta o corpo como lugar de expressões inconscientes, funcionando como contraponto ético à lógica disciplinar das instituições e abrindo espaço para que a velhice seja vivida em sua potência de reinvenção subjetiva.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

Corpo, cuidado e intersubjetividade: a institucionalização da velhice em uma perspectiva psicanalítica. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568569