A clínica com pessoas transmasculinas e a entrada em análise
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568643Resumo
O presente relatório de estágio, elaborado por Luiz Henrique Martins Araújo Ávila sob a supervisão do professor Cauan Antonio Silva dos Reis, detalha a experiência clínica no atendimento a uma pessoa transmasculina, T., um homem de 35 anos. O trabalho é fundamentado na psicanálise de orientação lacaniana e explora o complexo processo da "entrada em análise" do paciente, um marco crucial no tratamento psicoterapêutico. A prática consistiu em sessões clínicas semanais de 30 a 45 minutos, utilizando métodos como a associação livre, a transferência e a interpretação para promover a elaboração das questões do paciente. T. iniciou seu acompanhamento em maio de 2024 com o objetivo de compreender seus processos subjetivos durante sua transição de gênero. As sessões iniciais foram marcadas pelas entrevistas preliminares, onde se estabeleceu uma forte relação transferencial, inicialmente identificada como um "amor transferencial". Contudo, o ponto de virada no tratamento ocorreu quando T. deslocou sua posição subjetiva. Ele deixou de atribuir ao analista um "suposto saber" sobre si mesmo e passou a ser o protagonista na construção de seu próprio entendimento, significando sua efetiva entrada em análise. A partir desse momento, T. começou a trazer para as sessões questões profundas sobre sua identidade e suas inseguranças. Embora inicialmente falasse sobre seu relacionamento amoroso e a convivência com a família da parceira, o cerne de sua angústia residia na constituição de seu eu. Ele se debatia com o ideal de masculinidade que desejava performar, em constante tensão com o medo de repetir os padrões de violência intrafamiliar perpetrados pelos homens de sua família, como seu pai e irmão. Um tema central na análise foi o desejo de T. de romper com o ciclo de masculinidade tóxica. Ele não queria se tornar como o pai, mas sim como o pai que poderia ter sido. Esse conceito, expresso no neologismo "paiformar", revela a busca por uma figura paterna simbólica idealizada, uma forma de autoformação que foge da repetição familiar. Durante uma sessão, através de um "corte lacaniano", T. acessou memórias de seu passado, referindo-se a si mesmo como "ELA", uma pessoa que ele sentia ter sido abandonada pelo pai na infância. Esse abandono simbolizava um profundo rompimento emocional, mas também o ponto de partida para sua determinação em não se tornar o que o pai se tornou, especialmente após sucumbir ao alcoolismo. Nas considerações finais, o autor reflete sobre os desafios e a importância da clínica com pessoas trans, que enfrentam violências sistemáticas na sociedade. Ele defende uma prática psicanalítica que rompa com padrões eurocêntricos e patologizantes, sendo construída a partir das vivências de grupos minorizados. A experiência, supervisionada por um profissional sensível às questões de gênero, foi fundamental para sua formação, reforçando a necessidade de afeto, cuidado e dignidade para que as pessoas LGBTQIA+ possam ser quem desejam ser.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades
Como Citar
A clínica com pessoas transmasculinas e a entrada em análise. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568643