Em nome de ser mãe: sobre a captura do filho como objeto das demandas maternas
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568659Resumo
Este resumo apresenta parte da pesquisa de dissertação em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da UERJ. O presente trabalho propõe tratar, a partir de casos clínicos, como mulheres podem se apropriar da função materna para capturar seus filhos, numa demanda caprichosa, que pode se dar através do excesso de amor ou de ódio. A partir de autores historiadores e sociólogos foi possível perceber como a estruturação das noções de maternidade e família foram abordadas ao longo do tempo na cultura. Desde a modificação da visão da infância e a consequente valorização da figura materna – que passa a ser vista como cuidadora da criança, tida como o “futuro da civilização”, até o estabelecimento da imagem da “boa-e-santa mãe”, a partir dos paradigmas cristãos, com a representação mítica da Virgem Maria – pretendemos pensar a criação de uma certa identidade do que supostamente deveria ser uma mãe, apoiada na imagem de uma mulher santificada, sacrificada, incondicionalmente amorosa e dotada de um saber natural sobre o cuidado das crianças. É na clínica psicanalítica que podemos verificar as consequências do bem que a figura ideal da mãe pretende transmitir. Freud indica um estado de prematuridade biológica em que o bebê nasce, apontando para a necessidade de um semelhante investir libidinalmente nessa criança. Os cuidados desse semelhante são culturalmente atribuídos à mulher, apoiados nos discursos médico, histórico e mitológico de um saber natural sobre ser mãe. Portanto, se recai sobre a mulher um caráter tão fundamental na constituição do filho, não podemos negar que algo da libido feminina fica retida, e até por vezes sacrificada, em nome do exercício do cuidado. Assim, quem poderá ser cobrado por isso é o filho, seja pelo excesso de amor ou de ódio, mas sempre numa recusa de separação. Desenvolvo essa pesquisa a partir de casos em que mulheres se apropriam dessa função fundamental na constituição psíquica dos filhos, de uma forma que os capturam nas mais diversas demandas caprichosas. Não se trata, portanto, de um saber natural feminino ou uma competência feminina restrita ao viés biologizante do corpo, mas sim do que resta da própria experiência com o Outro como um saber desconhecido, sem garantias e que marca o corpo do sujeito de forma indelével. Dessa forma, visamos tensionar a construção histórica e discursiva de uma suposta identidade materna e sustentar, a partir da ética da psicanálise, que não preconiza uma boa maternidade, mas que ao se opor ao ideal normativo de ser mãe, convoca o sujeito diante do seu desejo e de sua falta.Downloads
Os dados de download ainda não estão disponíveis.
Downloads
Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
Em nome de ser mãe: sobre a captura do filho como objeto das demandas maternas. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568659