Viver um dia de cada vez: experiência psicanalítica mediada por tecnologia como prática democrática

Autores

  • Márcia Campos de Oliveira Autor
  • Carolina Oliveira Da costa Luchetta Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568706

Resumo

O presente trabalho propõe uma reflexão sobre a experiência da psicanálise mediada por tecnologia como farol de prática democrática e acessível na escuta do sofrimento psíquico contemporâneo. Viver um dia de cada vez é condição que se impõe: a vida cotidiana torna-se um desafio permanente, tal qual já advertia Freud em O mal-estar na civilização (1930). Décadas antes da travessia pandêmica, Lasch (1984) já apontava para a sobrevivência psíquica como resposta a uma organização social progressivamente narcisista, que repercute em interferências profundas na construção identitária do sujeito e em sua experiência de corpo. Cinco anos após a experiência mundial – e desigual – da Covid-19, seus efeitos persistem. O sofrimento psíquico se traduz no aumento preocupante de tentativas de autoextermínio, que atinge crianças, adolescentes e a população idosa, e no crescimento dos índices de ansiedade. Tal perturbação, enraizada no enfraquecimento do pacto civilizatório, fragiliza vínculos, pertença e esperança de futuro, atravessando a subjetividade corporal e evidenciando o corpo como palco de sintomas sociais. Para que a escuta desse sofrimento se dê de modo democrático e acolhedor, a tecnologia surge como aliada irrefutável. A clínica psicanalítica mediada pela tecnologia propõe-se a ser escuta, presença e mobilizadora de afetos e ressignificações. É um espaço que, funcionando além do horário comercial, testemunha, reconhece e valida o sujeito em sua singularidade. Esta modalidade, ao romper barreiras geográficas e sociais, executa um ato revolucionário: chega à população ribeirinha, sobe o morro, atravessa periferias urbanas e entra na intimidade de sujeitos atravessados pela precarização do trabalho, pela violência estrutural e pelo silêncio forçado de sua própria história. Nas periferias, onde o corpo é frequentemente marcado pela desigualdade, pela estigmatização e pela invisibilidade, a psicanálise mediada por tecnologia afirma-se como um dispositivo potente de cuidado. Ela permite que sujeitos em situação de vulnerabilidade possam narrar suas dores e reinscrever o corpo como território de desejo e emancipação. Trata-se de um gesto político e clínico que não apenas amplia o acesso, mas também legitima a experiência daqueles que, historicamente, foram relegados às margens do direito à palavra e ao cuidado em saúde mental. Trata-se, pois, de afirmar uma psicanálise que acolha e promova transformação, em que o sujeito recupere o protagonismo de sua vida e reinscreva seu corpo como espaço de resistência. É crucial que cada pessoa possa compreender os atravessamentos do sexismo, do etarismo, do racismo e do neoliberalismo em sua forma de existir e de se reconhecer. A escuta terapêutica, como assinala Bonder (2004), é uma das maiores descobertas das Ciências Humanas. É pela palavra que os corpos marcados por histórias de sofrimento poderão ser ressignificados, recontados e elaborados. Assim, a clínica mediada por tecnologia afirma-se como caminho vital para perceber o sujeito em relação ao seu corpo, ao seu meio e à sua sobrevivência psíquica.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

Viver um dia de cada vez: experiência psicanalítica mediada por tecnologia como prática democrática. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568706