Corpos desmentidos: uma leitura metapsicológica da exploração sexual infanto-juvenil na Ilha de Marajó

Autores

  • Eduarda Negromonte Autor
  • KAREN NASCIMENTO DE ALBUQUERQUE Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568722

Resumo

A exploração sexual infanto-juvenil na Ilha de Marajó (PA), cujos índices de estupro infantil são quase três vezes superiores à média nacional, mesmo diante da subnotificação - em que apenas 11% das vítimas denunciam-, é frequentemente narrada como parte de uma suposta cultura “tolerante” local. Esse contexto evidencia um quadro grave de vulnerabilidade social no Brasil, que silencia e desautoriza a percepção da criança diante da opressão. Para o sujeito, o trauma não se define apenas pelo ato violento, mas sobretudo pela ausência de reconhecimento por parte das figuras de cuidado. Esse processo revela uma dinâmica de desmentido que, ao ultrapassar o nível individual, se institui como desmentido social, perpetuando a violência. A psicanálise oferece instrumentos teóricos e clínicos que favorecem a elaboração subjetiva e problematizam a naturalização desse funcionamento. Este artigo propõe uma leitura metapsicológica desse fenômeno, articulando os conceitos ferenczianos de desmentido e desmentido social à noção winnicottiana de ambiente suficientemente bom. A falha crônica desse ambiente no contexto marajoara – atravessado por abolição tardia, miséria persistente, economia de subsistência e ausência de serviços públicos – potencializa a violação, configurando uma dupla violência: a do agressor direto e a do meio social. Nesse cenário, a mercantilização histórica do corpo feminino e infanto-juvenil, exemplificada nas chamadas “meninas balseiras”, revela os entrelaçamentos entre gênero, racismo estrutural e heranças coloniais. O corpo emerge, assim, como território violado e desprotegido, marcado pela cumplicidade do ambiente. A metodologia adotada é documental, baseada na análise de reportagens, documentários, artigos acadêmicos e no filme MANAS (2025), de Marianna Brennand Fortes, que traz à tona a exploração sexual de crianças e adolescentes no Marajó. A leitura psicanalítica desses materiais ocorre pela via da metapsicologia, tendo a escuta clínica como referencial interpretativo. A análise evidencia como a ausência de um ambiente suficientemente bom agrava o sofrimento psíquico e retroalimenta o pacto do desmentido, perpetuando o ciclo de silenciamento e exclusão. Os resultados indicam que, ao serem desmentidas, as crianças passam a duvidar da própria percepção, internalizando a violência como destino e reproduzindo, no corpo e na subjetividade, sintomas de um trauma não reconhecido. O desmentido social, instaurado como pacto, reforça a invisibilidade dessas infâncias e dificulta políticas efetivas de enfrentamento. Por outro lado, quando a violência é reconhecida e a verdade do sujeito legitimada, a psicanálise se afirma como ato político, rompendo o ciclo de silenciamento e reiterando que violência não é cultura, mas violação. Conclui-se que a psicanálise, articulada a ações comunitárias e de proteção social, pode se constituir como dispositivo de resistência, favorecendo a elaboração do trauma e a reinvenção subjetiva e coletiva. Ao conjugar escuta clínica, crítica social e compromisso ético, afirma-se não apenas como saber sobre o sofrimento, mas como prática transformadora, capaz de sustentar o fortalecimento do ego, apoiar mecanismos de defesa mais integrados e contribuir para a construção de novos sentidos diante da violência. Este trabalho busca ampliar o debate sobre esse fenômeno no Brasil e afirmar a potência ética da psicanálise frente às necropolíticas que atravessam os corpos vulneráveis.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades

Como Citar

Corpos desmentidos: uma leitura metapsicológica da exploração sexual infanto-juvenil na Ilha de Marajó. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568722