Habitar o risco, reinventar o corpo: o surfe como prática clínica e cultural de cuidado

Autores

  • Thaisa Marques Simões Autor
  • DIEGO ANDRES SALCEDO Autor
  • Tony Meireles dos Santos Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568750

Resumo

O sofrimento psíquico entre universitários na adultez emergente é marcado por sintomas de ansiedade, estresse e angústias, mobilizando em nós práticas criativas que ampliem os modos de cuidado. Convocando o corpo, atravessado por ondas e afetos, a um novo espaço de (des)equilíbrio, angústia e desejo, o surfe. Tendo isso em vista, o surfe surge não só enquanto prática física, como também vivência simbólica, que pode vir a proporcionar um espaço de elaboração psíquica e de reinvenção do corpo-desejante. Lidar com o mar, metáfora do desconhecido, convida o corpo ao encontro com o risco. Nesse processo, a angústia, longe de ser eliminada, pode ser revisitada e cuidada como potência de transformação. Embora individual, o surfe se aprende coletivamente, com instrutores, colegas e espectadores que compartilham águas, afetos e desafios. Entre a solidão com a prancha e o pertencimento ao grupo, ressoa a mente de grupo freudiana, onde vínculos e emoções se intensificam. Nesse espaço, os grupos operativos potencializam o surfe como experiência simbólica de escuta e transformação. No movimento do corpo, o surfe atualiza a tensão entre controle e liberdade. A necessidade de técnica e disciplina convive com a imprevisibilidade dos fluxos e das potências oceânicas. Esse atravessamento convoca o sujeito a aceitar as incertezas e limites, fortalecendo a confiança em sua própria capacidade de habitar o risco. O corpo, nesse contexto, torna-se campo de inscrição e sustentação do desejo. O objetivo desta pesquisa é investigar o impacto do surfe como dispositivo clínico e cultural, destacando seu potencial de articular corpo, linguagem e coletividade na promoção de saúde psíquica e emancipação subjetiva. A prática do surfe pode oferecer um espaço para a elaboração psíquica de angústias para a invenção de novos contornos subjetivos e para a integração psique-soma. A pesquisa em andamento faz parte de um mestrado acadêmico e tem um delineamento de pesquisa-intervenção misto longitudinal, metapsicológico e transdisciplinar, fundamentado na leitura psicanalítica e no referencial de grupos operativos. A análise articula referenciais teóricos de Freud, Winnicott e Pichon-Rivière à prática corporal em ambiente natural, o surfe, para compreender a experiência subjetiva do corpo em movimento. Os instrumentos a serem utilizados além da intervenção da prática de surfe e oficinas com metodologias participativas nos grupos operativos serão: entrevistas, questionários de personalidade, qualidade de vida e competências emocionais, e teste projetivo Casa-Árvore-Pessoa. Os achados preliminares permitem apontar que o surfe pode vir a possibilitar a emergência do corpo como território de inscrição do inconsciente, lugar de tensão entre controle e liberdade, disciplina e imprevisibilidade. Assim, o surfe, enquanto experiência de corpo, psique e soma, em movimento, pode ser pensado como prática criativa que convoca a psicanálise a dialogar com territórios não tradicionais de cuidado. Trata-se de reconhecer que o mar, ao mesmo tempo espaço natural e simbólico, pode se tornar lugar de clínica ampliada, onde o corpo não é apenas objeto de disciplina, mas sujeito de desejo e transformação.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

Habitar o risco, reinventar o corpo: o surfe como prática clínica e cultural de cuidado. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568750