Quando olho, sou visto. portanto, inexisto: o abjeto em Ricardo III
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18569017Resumo
Quando Winnicott apresenta seu aforismo “Quando olho, sou visto; logo, existo” (2019, p. 152), partimos para o pensamento de um bebê cuja identificação cruzada com o ambiente cuidador ocorreu, o bebê é visto pelo ambiente. O autor nos convida a pensar nos bebês inexistentes, nunca encontrados, nunca vistos “[...] tomo cuidado para não ver o que não está lá para ser visto (a menos que eu esteja cansado)” (Winnicott, 2019, p. 152). É diante desse aforismo Winnicottiano e na figura do bebê que não pode ser visto, que esse artigo se debruça em uma análise do personagem Ricardo III de Shakespeare a partir da noção de Abjeto (Kristeva, 1982). Para tal, é necessário expandir a noção de função materna, proposto por Winnicott, para além do campo biológico e seu significante “mulher”, pois “Quando se fala de uma falha materna, precisamos compreender que ela pode se originar no pai, ou nos ancestrais, ou ainda, no ambiente sociocultural, em que se encontra a família (Safra, 2021, p. 109, grifo nosso). O que nos cabe conceber o ambiente sociocultural, enquanto produtor de símbolos e mediador dos afetos. O corpo deficiente de Ricardo III, inassimilável à cultura de sua época, simboliza punição. No entanto, ser partícipe da realeza lhe confere o “privilégio” de escapar de violências severas, comuns aos corpos deficientes, frequentemente submetidos à tortura ou descarte. Seu corpo é simbolicamente excluído por não se encaixar nas alianças sociais inconscientes que conferem legitimidade ao grupo (Kaës, 2014). Segundo a leitura freudiana (1905) de Oliveira (2025), as fases oral e anal são centrais na simbolização: marcam o início da relação com o dentro e o fora, envolvendo incorporação e rejeição, normas e significados. A fase anal introduz a autonomia e a separação do eu e do outro, fazendo da alimentação um processo simbólico de construção da realidade e alteridade. O sujeito se constitui ao traduzir experiências corporais e pulsionais em representações (Roussillon, 2021). O que é simbolicamente digerido integra o Eu pelo ambiente (Cuidador e Cultural); o que não é, retorna como sintoma. Nesse campo, surge o abjeto (Kristeva, 1982), como resto não simbolizado: aquilo que não pode ser incorporado, mas também não pode ser totalmente expulso, ameaçando à coesão do sujeito e da cultura. Neste ponto que a sociedade se inscreve de maneira decisiva. As formações sociais, por meio de contratos narcísicos (Kaës, 2014), definem quais experiências podem ser “digeridas” simbolicamente e quais permanecerão indigeríveis. A hegemonia cultural exclui o que escapa à norma, como o corpo deficiente de Ricardo III, transformado em resto simbólico. Hoje, essa lógica persiste: corpos deficientes, negros, trans e outras formas de existência dissidentes têm sido historicamente tratados como indigeríveis pelo discurso hegemônico, situados na borda apontados como ameaça ao pacto simbólico que sustenta a ordem social. Assim, a deficiência de Ricardo III, mais que biológica, é um signo social que expõe a dificuldade de simbolizar o que escapa à norma. A obra revela como forças sociais moldam quem é reconhecido como humano e quem é lançado ao abjeto.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades
Como Citar
Quando olho, sou visto. portanto, inexisto: o abjeto em Ricardo III. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569017