Corpo-aberração: da norma ao sintoma
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18569019Resumo
Parte-se de uma expressão recolhida da clínica, a saber, “corpo aberração”, para discutir a dimensão corporal que aparece na experiência de escuta dos sujeitos e que revela não uma pretensa coesão, mas justamente uma perspectiva “aberrante”, que situa o corpo do ser falante a partir de sua disrupção. A fala em questão emerge da enunciação de um sujeito às voltas com a rigidez social do binarismo de gênero, com o qual ele não se identifica. Diante desse impasse, surge essa potente expressão para nomear ao mesmo tempo uma experiência singular com o corpo e uma direção que nos parece fundamental à ética psicanalítica. Quanto a esse segundo aspecto, lembramos que “aberração” comporta o significado também de excepcional, aquilo que se desvia do caminho tido como normal. Entendemos que é justamente sobre esse desvio que a psicanálise se sustenta desde sua fundação, marcada pela excepcionalidade que o corpo das histéricas apresentava frente ao discurso médico estabelecido. Nossa aposta com este trabalho é apresentar essa expressão enquanto ferramenta clínica e política do campo psicanalítico, apostando que ela traz consigo justamente a síntese do funcionamento do sintoma. Nesse sentido, ressaltamos que o sintoma denuncia no corpo uma satisfação ambígua, que rompe com o ideal que seria sustentado por um “eu” ao qual o sujeito tentaria, sem sucesso, se adequar. Contemporaneamente, interessa-nos pensar essa dimensão imaginária sobretudo no que ela nos permite ler do ideal cis-heteronormativo que compõe o imaginário de maneira quase inquestionável. Se muitas discussões no campo se propõem a atrelar esse registro a identidades políticas minoritárias, nossa direção neste trabalho consiste, em outra via, a delimitar o imaginário em seu aspecto mais vinculado à norma, isto é, o que sustenta essa identificação - cis, hétero - de forma tão consistente socialmente. Essa normatização é, como sabemos, produtora de sofrimento psíquico e violências de maneira massiva. O que o caso nos permite avançar, articulado à teorização psicanalítica, é justamente o resgate do que há de estranho na relação com o corpo de maneira amplificada. Tendo isso em vista, mudam-se as noções de terapêutica e de direção do tratamento de uma forma que, apostamos, permite fazer frente a tratamentos prescritivos. Tenta-se avançar, assim, sobre o potencial emancipatório contido na orientação pela estranheza do sintoma.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
Corpo-aberração: da norma ao sintoma. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569019