“Não sou de verdade”: a dimensão do corpo na experiência da criança trans

Autores

  • Yasmim Marques de Souza Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18569027

Resumo

Tomando o contexto brasileiro em que as políticas sexuais e de gênero têm ganhado resplandecência na cena social com o suporte de estudos feministas e queer, surge a questão da “criança trans” para grafar experiências de infância que não se inserem na lógica hegemônica de gênero. Nessa seara, tem-se a cooptação de discursos ideológicos e supostamente científicos que acionam sentidos de infância e colaboram para a construção narrativa da infância vulnerável, a ser protegida contra as discussões sobre gênero e sexualidade. A partir dessa figuração de “vulnerável e idiótica” produzem-se operadores de cuidado à infância que privilegiam a ideia de um corpo infantil vacilante e que deve ser disciplinado a partir de fronteiras rígidas entre natureza e cultura e de uma compreensão de gênero dicotômica. Propõe-se discutir o que esses discursos produzem no campo de subjetivação da criança, em especial na dimensão corporal. Para isso, utilizam-se vinhetas clínicas produzidas a partir de atendimentos realizados em clínica privada com uma criança de 5 anos que reivindica a transição para o gênero feminino. A criança em questão traz falas emblemáticas como: “Eu não sou de verdade”; “Deus me fez errado, porque não existe menina de pinto”; “Vou arrancar meu pinto para poder ser menina” e que apontam para a não inteligibilidade de sua experiência com o corpo, que produz efeitos de não-existência. Em psicanálise, compreende-se a formação subjetiva a partir de um corpo que é inscrito na linguagem através dos significantes do Outro. Quando o campo do discurso engendra um regime de verdade baseado nos signos binários de gênero, aponta-se para efeitos de subjetivação que acabam por excluir outras vivências e formas de ser criança e se localizar na vida social. Aponta-se, então, para a necessidade de construir práticas de cuidado que se façam sob a égide da criança como operador ético, capaz de revelar contradições sociais e subjetivas e aproximar a compreensão da experiência singular de infância. De tal forma que se possa compreender que por trás do enunciado “trans” há uma montagem sintomática que não se resume à escolha “menino ou menina”, mas lançar-se à possibilidade de encontrar enredamentos possíveis, capazes de gerar efeitos de estabilização da imagem de si e dar condições de sustentação para a existência de seu corpo no mundo. No caso apresentado, apostou-se na relação transferencial e no brincar como forma de acessar representações possíveis ao corpo. Foram criadas cenas a partir da invenção de personagens como “a fantasminha”, que contava através da brincadeira o que tinha de bom em não ser de verdade. Confecções de mapas do corpo em conjunto, em que contornamos e desenhávamos como queríamos que as pessoas nos vissem e tampávamos o que queríamos que elas não vissem. E oficina sobre outros seres (reais ou mitológicos) que não sabemos se são meninos ou meninas. Considera-se a urgência de modos de produzir escuta da criança que se dirija a ela também em sua dimensão de sujeito na política.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

“Não sou de verdade”: a dimensão do corpo na experiência da criança trans. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569027