A escuta psicanalítica do feminino e da violência doméstica na obra Tudo é Rio
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568414Resumo
O presente trabalho promove reflexões acerca da permanência de mulheres em relações conjugais que causam sofrimento, sob a perspectiva da psicanálise, por meio da análise da personagem Dalva do livro Tudo é Rio, de 2024, escrito por Carla Madeira. O método é a psicanálise extramuros, que se refere a um caminho de escuta da personagem Dalva da obra literária. A mulher problematizada faz parte de um recorte social formado por mulheres brancas, pertencentes à classe média e constituídas no contexto familiar patriarcal contemporâneo. A discussão acontece em torno das relações amorosas nas quais mulheres sustentam uma vida destinada aos cuidados da casa e dos filhos, em nome das transmissões geracionais que tiveram sobre o amor e as relações conjugais. Conforme aponta Santos e Oliveira (2024), a escritora Carla Madeira buscou evidenciar que a personagem, além de possuir efeitos deixados pelo discurso patriarcal autoritário do pai e do marido, permaneceu no vínculo conjugal através de repetições inconscientes advindas da sua própria história familiar. O enredo gira em torno do romance de Dalva e Venâncio, marcado por violência destinada ao feminino. A escritora faz uma leitura da mulher contemporânea como essa que ainda se coloca como a que se submete ao desejo masculino, apaga a sua subjetividade, e que se entende como a responsável pela garantia do casamento, mesmo que às custas de dominação e dinâmicas conjugais violentas (Santos & Oliveira, 2024). Ressaltam que a honra da mulher socialmente aceita no contexto patriarcal, é dada a partir da posse do seu corpo e de sua obediência ao homem, seja ele o pai ou o marido (Santos & Oliveira, 2024). Referente isso, à Psicanálise propõe ao leitor um convite para olhar a sustentação que a mulher faz diante de histórias de amor que aparentam um horror inicial, e pensar o que a leva a ceder ao papel de mulher comportada, esposa e mãe que tanto depreciou, mas que em algum momento, a capturou. A esse respeito, Bento (2007) afirma que a escolha amorosa é uma identificação inconsciente, em que o objeto amado possui relação com a história infantil de cada sujeito. Há, nesta escolha, uma espécie de assujeitamento e dependência por parte da mulher que permanece no vínculo adoecedor, tal qual como no imago infantil uma criança venerou e confiou sua vida exclusivamente às figuras paternas. Interessa a esta pesquisa, pensar que Dalva representa não só a mulher do século passado que sofreu em meio a um contexto altamente repressor, que gritou através do sintoma o que não pode dizer da sua história, mas também, a mulher atual, que sob outras faces, continua a sustentar o lugar assujeitado ao desejo masculino e permanece em relações violentas em nome do suposto amor ideal que a mulher deve buscar. Nos perguntamos se há lugar e que lugar é o da mulher que deseja algo além do casamento e da maternidade, quais saídas são possíveis além da suposta segurança de um casamento socialmente aceito, temas ainda tão presentes na contemporaneidade como o símbolo da realização feminina.Downloads
Os dados de download ainda não estão disponíveis.
Downloads
Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
A escuta psicanalítica do feminino e da violência doméstica na obra Tudo é Rio. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568414