Uma permissão para esquecer: memória, testemunho e intergeracionalidade no luto, a partir da perspectiva da psicanálise

Autores

  • Maria Isabel Rosa da Silva Arello Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568504

Resumo

O luto representa um fenômeno multifacetado: trata-se de uma experiência subjetiva, mas não se reduz a ela, na medida em que possui também outras dimensões, como a social e a simbólica. A perda de um ente querido não se esgota no desaparecimento biológico; exige inscrição discursiva para que possa haver elaboração psíquica e social. Nesse contexto, a memória se apresenta como ferramenta de resistência ao silenciamento, enquanto o esquecimento - frequentemente percebido como apagamento - pode adquirir um sentido ético. Endo (2013) descreve essa possibilidade de um “esquecer sem culpa e lembrar com saudades”, sugerindo que o esquecimento pode coexistir com a preservação do vínculo e da presença simbólica daquele que partiu. O objetivo deste estudo é analisar, a partir da perspectiva da psicanálise lacaniana, sobre o esquecimento no luto como gesto ético, capaz de coadunar memória, saudade e continuidade simbólica. A metodologia adotada foi bibliográfica e exploratória, articulando contribuições da psicanálise e da literatura sobre luto, memória e esquecimento. Foram analisados Dunker, que discute a narrativa como operadora do trabalho de elaboração; Groisman, que distingue entre esquecimento cognitivo e esquecimento social; e Endo, que concebe a memória como última fronteira contra o desaparecimento, mas também como espaço de reconciliação com a perda. A literatura, representada por Guimarães Rosa, acrescenta a noção de encantamento como forma de resistência ao apagamento da presença simbólica. A reflexão é ampliada ainda pela noção de testemunho, proposta por Seligmann-Silva, Ginzburg e Hardman (2012), que evidencia que lembrar e narrar não são apenas atos individuais, mas dispositivos éticos e coletivos capazes de transmitir experiências de dor e de resistência às gerações futuras. Os resultados apontam que, no luto, esquecer não equivale a apagar. Pelo contrário, o esquecimento pode ser sustentado por memoriais e marcas simbólicas, garantindo a preservação da lembrança. A memória, nesse contexto, se configura como dispositivo intergeracional e testemunhal, permitindo que a experiência da perda seja transmitida e vivida de forma compartilhada. O testemunho, enquanto prática discursiva, transforma a ausência em presença social, assegurando que os rastros da vida continuem ativos no tecido coletivo. Conclui-se que o esquecimento no luto pode ser compreendido como gesto de cuidado. A permissão para esquecer, ao lado da memória intergeracional e do testemunho, sustenta vínculos simbólicos e assegura a continuidade da presença daquele que partiu. Esse olhar amplia a compreensão do luto, revelando sua dimensão ética, social e poética, e evidencia a importância da memória e do testemunho como instrumentos de resistência contra o apagamento e de preservação simbólica n(d)a vida coletiva.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 5 - Corpo Histórico e Antropológico

Como Citar

Uma permissão para esquecer: memória, testemunho e intergeracionalidade no luto, a partir da perspectiva da psicanálise. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568504