A precarização da escuta como efeito da gestão neoliberal do tempo e seus efeitos sobre as práticas de cuidado em saúde
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568690Resumo
O neoliberalismo redefine as modalidades de laços sociais na contemporaneidade, impactando a subjetividade de nosso tempo, uma vez que penetra a vida cotidiana visando o recobrimento do real. Se tomarmos como bússola a indicação de Lacan de que o inconsciente é a política (Lacan, 1967/2008), chegamos na indispensável tarefa de “compreender o neoliberalismo como uma forma de vida nos campos do trabalho, da linguagem e do desejo” (Safatle, Silva-júnior & Dunker, 2020, p. 8). Na saúde, foco do presente trabalho, a penetração da lógica neoliberal manifesta-se na crescente adesão aos imperativos de eficiência, produtividade e desempenho. Tais ideais incidem nas relações e práticas estabelecidas nas instituições de saúde, podendo gerar ensurdecimento nas equipes. Nessa direção, escrevemos para evidenciar os efeitos dessa lógica nos tratamentos ofertados nos serviços de saúde, enfatizando a precarização da escuta. O percurso metodológico do presente trabalho foi construído a partir de uma articulação teórico-reflexiva entre autores da psicanálise, como Sigmund Freud, Jacques Lacan e Maria Lívia Moretto; da análise institucional, com destaque para Emília Broide; e do campo da saúde do trabalhador, com ênfase em Christophe Dejours. Nesse campo, onde predominam os imperativos da prevenção, da cura e da salvação (Gomes & Melo, 2017), a exaltação da eficácia e da produtividade pode levar a processos iatrogênicos uma vez que a ambição terapêutica (Freud, 1912) e a antecipação do sentido (Moretto, 2023) obstaculizam a escuta. Tais condições repercutem não apenas na qualidade do cuidado ofertado, mas também na saúde do próprio trabalhador. Dejours (2022) apontou que mecanismos de defesa são mobilizados diante do sentimento de indignidade e frustração no trabalho. Dentre eles, mostrou que a canalização da agressividade frente à impotência pode se manifestar na impulsão ao trabalho ágil . Dunker et al (2021) assinalam que a lógica neoliberal extrai produtividade e desempenho desses mecanismos. Diante dessa constelação de fatores, a impulsão para o trabalho ágil suprime o tempo-espaço para o enigma, para a singularidade, para a polissemia da palavra (Rosa, Estevão & Braga, 2017). Destacamos com Moretto (2023) que se quisermos que as coisas se resolvam com mais assertividade e em menos tempo, é preciso justamente priorizar a escuta do sofrimento nas práticas de cuidado. Apostamos desde Freud que a escuta produz efeitos determinantes no mal estar e no sofrimento. Nessa direção, ressaltamos a importância de debates em torno da função da escuta e das condições necessárias ao seu exercício. Por fim, apostamos em seu potencial de gerar porosidades (BROIDE, 2020) que fazem girar discursos e posições cristalizadas nas instituições, afrouxando a força alienante dos significantes mestres que as circundam.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 3 - Corpo e Trabalho
Como Citar
A precarização da escuta como efeito da gestão neoliberal do tempo e seus efeitos sobre as práticas de cuidado em saúde. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568690