A clínica psicanalítica com adolescentes privados de liberdade: inscrições no corpo e sofrimento psíquico

Autores

  • Guilherme Cruz Autor
  • Pedro Teixeira Castilho Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568589

Resumo

Esta pesquisa investiga os efeitos psíquicos da privação de liberdade em adolescentes submetidos a medida socioeducativa, tomando como paradigma as marcas inscritas no corpo por meio de escarificações e automutilações. O estudo parte da experiência do autor no Sistema Único de Saúde (SUS) de Belo Horizonte, em serviços de urgência em saúde mental e em um centro de saúde, e propõe articular a clínica psicanalítica ao sofrimento sociopolítico vivido por adolescentes em contexto de vulnerabilidade. A temática do sofrimento psíquico dos adolescentes privados de liberdade tem estado cada vez mais recorrente nas discussões dos diversos dispositivos de atenção à essa população, convocando a necessidade de novas abordagens e metodologias para condução e manejo destes casos. Nesse contexto, destacam-se os quadros de automutilação, seja pelo efeito de espanto causado naqueles que os presenciam, seja pela dificuldade, por parte das instituições, em construir um saber fazer diante disto. Pretendese contribuir para o debate sobre práticas de cuidado em saúde mental direcionadas a adolescentes privados de liberdade, deslocando as respostas de viés medicalizantes ou punitivas para a abertura de caminhos clínicos que considerem uma ética do sujeito. Uma das características da clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento é seu caráter de intervenção na esfera pública, da escuta como testemunho que produz um resgate de memória, fazendo escutar o sujeito que ocupa o lugar de resto na estrutura social e permitindo que ele retome a cena não mais como vítima ou algoz, mas como testemunha de um tempo. Buscase oferecer subsídios para a construção de estratégias de intervenção que valorizem e sustentem o lugar da fala do adolescente. Adotase a metodologia da construção de caso clínico, conforme Carlo Viganò, para analisar três casos de adolescentes que passaram a demandar intervenção dos serviços de saúde a partir da privação de liberdade, em contextos de automutilação. A coleta se dará a partir dos atendimentos clínicos, além da análise dos registros de prontuário, reuniões de equipe, privilegiando discussões coletivas que possibilitem a construção de hipóteses diagnósticas e a localização do lugar transferencial de cada adolescente. Esperase construir leituras possíveis sobre o estatuto das inscrições no corpo em contextos de privação de liberdade. Conclui-se que o acautelamento parece influenciar diretamente a economia pulsional ao desarticular o sujeito de seu laço com o território, afetando o ser de cada adolescente. O afastamento da vida urbana e das tramas territoriais, mesmo quando marcadas por violações e violência, tem consequências psíquicas significativas. O sujeito, privado de signos e costumes que o sustentam - seu estojo de identidade - fica à deriva, favorecendo mecanismos institucionais de controle e coerção. Destacamse respostas corporais ao excesso pulsional, como automutilações, agitação psicomotora e episódios de angústia.

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Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise

Como Citar

A clínica psicanalítica com adolescentes privados de liberdade: inscrições no corpo e sofrimento psíquico. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568589