Culpa e moralidade do trabalho: o corpo como palco da produtividade

Autores

  • Susan Emi Matsumoto Autor
  • Vivian Rafaella Prestes Autor
  • Alexandre Luis Ponce Martins Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18568639

Resumo

Este trabalho tem como objetivo articular a reflexão sobre a centralidade moral do trabalho, trabalhada por Jessé Souza, com a concepção de culpa na psicanálise freudiana. O intuito é problematizar os modos pelos quais o corpo é capturado pelo imperativo da produtividade, evidenciando como essa captura atravessa os processos de subjetivação, produzindo sofrimento psíquico e desgaste físico. Jessé Souza (2018) aponta que, na modernidade, o trabalho deixou de ser apenas um meio de subsistência para assumir o papel de critério moral e de identidade do indivíduo. A ideologia da meritocracia, sustentada por uma lógica que naturaliza desigualdades sociais, reforça a crença de que o valor de uma pessoa se mede por sua capacidade de trabalhar, produzir e ascender individualmente. Não basta estar inserido no mercado de trabalho: exige-se do sujeito disciplina e uma disposição permanente para o desempenho. O corpo deixa de ser visto como espaço de experiência subjetiva e passa a ser administrado como recurso produtivo, em conformidade com o capitalismo. Na leitura freudiana, a culpa se constitui como um afeto fundamental do laço social, pois nasce da internalização das proibições e exigências externas na forma do supereu. Em O mal-estar na civilização (1930), Freud descreve que a culpa não se limita ao arrependimento por uma ação cometida, mas se manifesta como um sentimento difuso que pode emergir mesmo diante de alguns pensamentos ou de desejos não realizados. Trata-se de uma culpa estrutural, ligada ao simples fato de o sujeito desejar para além das normas impostas. Na sociedade contemporânea, marcada pelo imperativo da produtividade, essa estrutura ganha contornos específicos: o supereu se reorganiza em torno do ideal de desempenho contínuo, exigindo que o sujeito esteja permanentemente ativo e eficiente. A culpa, nesse cenário, deixa de ser apenas efeito da transgressão e passa a se vincular também à sensação de insuficiência, à percepção de nunca se fazer o bastante, de nunca corresponder plenamente ao ideal produtivo. O sujeito se encontra aprisionado em uma dinâmica psíquica que reforça sua submissão ao trabalho, sentindo-se responsável por fracassos que, em grande medida, são efeitos de condições sociais e econômicas estruturais. Dessa forma, a culpa opera como um dispositivo de controle subjetivo que sustenta a precarização e o desgaste do corpo no trabalho contemporâneo. Os discursos sociais e econômicos são internalizados como autocobrança e autovigilância, transformando o sujeito em guardião de sua própria produtividade. O resultado é uma forma sofisticada de alienação, na qual o corpo passa a se movimentar segundo a lógica da moralidade do trabalho, alimentando experiências de esgotamento e adoecimento psíquico. Ao inserir essa análise no eixo “Corpo e Trabalho”, pretende-se mostrar que a exploração capitalista, além da esfera econômica, penetra também nos registros subjetivos, tornando a produtividade uma exigência internalizada que pesa sobre o corpo e o psiquismo. Assim, a psicanálise se apresenta como ferramenta crítica para problematizar tais mecanismos e, sobretudo, para abrir brechas. Brechas que permitam narrativas e movimentos capazes de escapar ao imperativo da produtividade, resgatando o corpo como lugar de criação, de desejo e de resistência.

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Publicado

2025-12-15

Como Citar

Culpa e moralidade do trabalho: o corpo como palco da produtividade. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568639

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