Cuidados paliativos e psicanálise: o im-possível no cuidar
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568754Resumo
Os Cuidados Paliativos (CP) são uma abordagem em saúde voltada ao cuidado de pessoas que estão convivendo com uma doença que ameaça ou limita a continuidade da vida. Diante de um cenário de práticas de saúde que tendem a não dar lugar à morte, essa abordagem realiza uma virada do mapa da cura para o cuidado, a partir da proposta de que o cuidado é possível mesmo quando a cura não é uma possibilidade. Assim, os CP buscam propor outras alternativas para o cuidado em saúde. Desde 2024, os CP configuram-se enquanto uma política pública de saúde no Brasil, a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP). Este trabalho é um estudo teórico-clínico que parte de experiências clínicas em Cuidados Paliativos no contexto hospitalar dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) de uma das autoras e de discussões realizadas no Núcleo de Estudos em Psicanálise e Infâncias (NEPIS/UFRGS). Objetiva-se investigar as possíveis contribuições teórico-clínicas da psicanálise para as condições de cuidado no contexto da política pública de Cuidados Paliativos. Sob o método da pesquisa em psicanálise, utilizamos a leitura dirigida pela escuta e a instrumentalização da transferência como dispositivos metodológicos. No levantamento de dados, delinearam-se os princípios da abordagem paliativa, os quais embasam a PNCP, e realizou-se uma revisão narrativa da literatura sobre as articulações entre CP e psicanálise. Além disso, recorreu-se a formulações de autores contemporâneos que realizam análises críticas sobre as incidências do poder na organização da vida e da morte. Os resultados indicam que os CP são uma questão de direitos humanos na medida em que defendem e ampliam o cuidado do sofrimento de pacientes e familiares. Contudo, ainda que as possibilidades de cuidado possam ser alargadas, a impossibilidade não pode ser subtraída, pois os ensinamentos de Freud e Lacan apontam que o impossível é condição da vida humana. Nesse sentido, percebe-se que, através dos ideais paliativista de qualidade de vida, alívio do sofrimento e aceitação da morte como um processo natural, podem ocorrer tentativas ilusórias de excluir completamente o sofrimento. Analisamos que o estabelecimento de normas associadas a ideais de cuidado ou do morrer podem ser buscas de tamponamento do Real. Todavia, o Real não é passível de ser recoberto, visto que marca a contingência da experiência. Destaca-se que há o risco de que tais ideais comprometam a escuta da dimensão singular de cada caso. O adoecimento e a morte podem lançar, de forma singular, cada sujeito em um território onde a linguagem não consegue contornar por completo a experiência do sofrimento. Há um limite que escancara algo da ordem do impossível, uma dimensão inalcançável pelo saber. Entendemos que considerar a singularidade e a irredutibilidade do Real é o que contém a potência de um cuidado que possa realizar transformações políticas, sociais e subjetivas. Conclui-se que a psicanálise pode trazer contribuições à PNCP através da inclusão da dimensão do impossível no campo do cuidado, ao transmitir o registro do Real enquanto furo no saber, de forma a convocá-lo como operador de trabalho no um a um.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 1 - Corpo Clínico
Como Citar
Cuidados paliativos e psicanálise: o im-possível no cuidar. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568754