Psicanálise e transidentidades: quando o corpo inventa a própria escuta
As interseções entre psicanálise e transidentidades marcam a história da psicanálise, e podem nos oferecer caminhos interessantes. Desde críticas à epistemologia patriarcal e eurocentrada que é o berço da psicanálise, até críticas psicanalíticas ao regime cishetero-patriarcal e ao modelo diagnóstico psiquiátrico, nos encontramos em alguns impasses: Pode-se pensar em uma psicanálise não-cisnormativa? Em uma psicanálise que não reproduz a heteronorma?
Expressões de cisnormatividade não são poucas. Podemos mencionar algumas, desde a postura de Lacan frente a Corinne (Jacques Lacan, 1976), tratando-a no masculino e não-reconhecendo sua afirmação de gênero, até afirmações mais recentes, tais como de Colette Chiland (2005, p. 565), que considera que “mudar de sexo é uma ideia louca porque ela se choca com uma impossibilidade", ou mesmo de Elisabeth Roudinesco, que escreve sobre as "trevas do pensamento identitário".
A psicanalista Letícia Lanz (2016) compreende que pessoas trans são um não-ser: não por ocuparmos lugares inexistentes, mas porque qualquer lugar que ocupamos, por uma ótica cisheteronormativa, será interpretado como um desvio da norma. Luck Palhano (2015), em relação às transmasculinidades, observa como a leitura social de homens trans é interpelada por olhares cisnormativos e por invisibilização. Escapar dessas miradas é um campo de disputa, no qual elaboramos terminologias, modos de subjetivação e sociabilidade que, ao se oporem às normatividades, produzem suas próprias nomeações.
Sara Wagner York, Megg Rayara Gomes Oliveira e Bruna Benevides (2020) problematizam a própria produção discursiva das identidades travestis e trans, ao apontarem que, historicamente, seus corpos foram nomeados e definidos a partir de olhares cisgêneros, que lhes atribuíram lugares e sentidos antes mesmo que pudessem enunciar a si mesmas. As autoras questionam, assim, os processos pelos quais determinados saberes produzem sujeitos e cristalizam verdades sobre seus corpos, destacando que a experiência travesti não se reduz a uma identidade homogênea ou a uma forma única de existência. Ao afirmarem a existência de múltiplas travestilidades e possibilidades de ser travesti, York, Oliveira e Benevides (2020) deslocam a questão da identidade de uma perspectiva prescritiva para a possibilidade de autodeterminação, tensionando os regimes de saber e poder que historicamente buscaram definir quem pode ser e como deve existir.
A impossibilidade de reduzir as experiências e identidades trans a uma só nomenclatura é destacada por João Nery (2014), ao escrever sobre transfeminismo e transmasculinidades. Para Nery, o transfeminismo é um movimento que deve abranger a multiplicidade de corporalidades e identidades, inclusive as transmasculinidades em suas distintas formas de expressão.
No que concerne à psicanálise, verificamos, contudo, um esforço para reduzir as transidentidades a um só termo, a uma só narrativa. Marcia Arán (2009, p. 657) compreende que, no que concerne à psicanálise, "em nenhum lugar fica tão evidente como uma narrativa declaradamente cultural se forja sob um disfarce anatômico". A pluralidade trans defendida por Nery é, portanto, mitigada e interpelada por narrativas cisheteronormativas e unilineares sobre o que significa “ser trans”.
No campo psicanalítico, há reações a esse reducionismo, como a de Kate Millett (1974), que considera Freud um expoente da misoginia na modernidade. Há perspectivas compreensivas, como a de Paul Robinson, segundo o qual "embora a abordagem Freudiana da homossexualidade fosse 'normalizadora', não era 'patologizadora'" (Paul Robinson, 2001, p. 92). Vale mencionar o posicionamento de Juliet Mitchell (1974), que considera a psicanálise não como uma teoria patriarcal, mas como uma análise do patriarcado.
Diante desses impasses, Eduardo Leal Cunha (2016, p. 10) questiona: "por que setores importantes ou mesmo hegemônicos do pensamento psicanalítico se deixam enredar nos discursos de enunciação da norma, que a partir da reflexão moral se desdobrarão no regramento jurídico, muitas vezes, ao que parece, procurando fazer da psicanálise um saber que sabe a verdade da norma e dos seus fundamentos?" E sobre uma 'verdade da norma', Rafael Cavalheiro e Milena da Rosa Silva (2020) defendem uma escuta não prescritiva, que se distância dessa busca por uma 'verdadeira' psicanálise.
As opressões patriarcais, de classe, racismo, capacitismo e outras formas de violência sobrepõem-se e se entrecruzam como ruas identitárias em constante movimento (Kimberlé Crenshaw, 2002). A compreensão das interseccionalidades como encruzilhada, atravessa nossa proposta de um dossiê elaborado por pessoas trans, travestis e não-binárias, reconhecendo que tais experiências não podem ser pensadas de forma dissociada, sendo importante considerar além de questões de gênero, também as deficiências e neurodivergências, sexualidade, raças, etnias, classes e territórios. Nesse sentido, Jairo Carioca (2025, p. 66) defende que a "identidade coletiva, em vez de representar um fechamento, constitui um recurso para a formação do Eu em sujeitos historicamente destituídos dessa possibilidade”, configurando e contestando hierarquias hegemônicas.
Em diálogo com essa perspectiva, Geni Nunes (2023), ao refletir sobre a colonização dos afetos, as binaridades e as normas brancoheterocisnormativas, poetisa que, para além "disso" ou "daquilo", existe "aquilo outro": onde há potência e múltiplas possibilidades. Interessa-nos, assim, conhecer e disseminar essa pluralidade de diálogos, rastrear as forças que emergem da "quebra" de um Eu normativo (Jota Mombaça, 2021), e entender como esse movimento ocorre no campo psicanalítico, em direção ao reconhecimento do Eu rasurado que não se deixa apagar, fluindo sua raiva em potência criativa (Carioca, 2025).
Adentrar essa encruzilhada epistemológica a partir de saberes trans exige mais do que uma mera atualização do léxico psicanalítico: impõe uma ruptura radical com a própria economia do gozo e do saber que sustentou, historicamente, a violência colonial na escuta. Quando a teoria psicanalítica tradicional toma a diferença sexual sob a égide da falta, da anomalia ou da fixação imaginária, ela opera sob o signo da "branquitude analítica" (Lia Vainer Schucman, 2012), do "cisgenerismo epistêmico" (Viviane Vergueiro, 2015) e do pacto narcísico da cisgeneridade (Pfeil; Pfeil, 2024), reduzindo a carne negra, trans e travesti à condição de puro sintoma da cultura ou de resto inassimilável do diagnóstico.
O corpo da travesti negra da periferia — atravessado pela geopolítica do genocídio, pela urgência do território e pela recusa da destituição subjetiva — expõe o limite da interpretação positivista: onde o analista treinado na norma enxerga "psicose", "fetichismo" ou "desmentido da castração", a clínica da insurreição escuta a invenção poética e política de uma linguagem própria para continuar existindo (Lélia Gonzalez, 1984; Beatriz Nascimento, 2021). O corpo transmasculino dissidente, atravessado por apagamento social e marginalização, tensiona as expectativas diagnósticas diante do que alguns psicanalistas chamam de “epidemia histérica do século XXI” (Jorge; Travassos, 2017).
Trata-se, portanto, de denunciar que o inconsciente não é neutro, mas um campo de forças atravessado pela linguagem, pelo trauma colonial e pelo direito à significação. Se o recalque e a negação foram historicamente manejados para capturar a diferença no espartilho da patologia, a escrevivência travesti, transmasculina, não-binária, periférica (Conceição Evaristo, 2007; Oliveira, 2020; Nery, 2014) convoca a psicanálise a realizar a sua própria análise: um desinvestimento das fantasias de controle e a abertura para uma escuta que acolha o trauma sem fetichizá-lo e sem exigir do sujeito a sua submissão à gramática do Édipo colonial. Este dossiê é, assim, um convite ético.
Frente a essas provocações, nos sentimos inclinades a pensar sobre psicanálise e transidentidades, com atenção às enunciações de analistas e estudioses trans da psicanálise. Convocamos pesquisadories, analistas e escreventes trans, travestis e não-bináries a ocuparem o rigor da escrita não para pedir licença à psicanálise, mas para restituí-la de sua vocação: a de ser uma práxis de libertação do sujeito à margem do direito de existir.
Abaixo, oferecemos uma lista não-exaustiva de tópicos que delineiam o escopo desta chamada:
- A psicanálise é cisheteronormativa? O inconsciente é cisnormativo?
- Como pensar em uma clínica das transidentidades? É possível pensar em "uma"?
- Perspectivas psicanalíticas sobre as normatividades de gênero
- Perspectivas críticas ao conservadorismo psicanalítico no que concerne às dissidências de gênero
- O futuro da psicanálise frente às transidentidades
- O que escrevem psicanalistas trans no Brasil e em outros territórios?
Receberemos:
- Artigos
- Ensaios
- Entrevistas
- Traduções
Não aceitaremos trabalhos feitos com uso de Inteligência Artificial.
Para conferir as normas de submissão, acesse: https://revista.escutaperipherica.org/index.php/revistaperipherica/about/submissions
Prazo: 15/12/2026
Organização: Cello Pfeil, Lei Eliel Sassine, Maria Ruca Amorim.
Bibliografia
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CAVALHEIRO, Rafael; SILVA, Milena da Rosa. Psicanálise e dissidência de gênero: questões para além da diferença sexual. Revista Subjetividades, 20(3), e9793, 2020
CHILAND, Colette, Problèmes posés aux psychanalystes par les transsexuels. Revue Française de Psychanalyse, v. 69, p. 563-577, 2005, p. 565.
CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, p. 171-188, 2002.
CUNHA, Eduardo Leal. A psicanálise e o perigo trans (ou: por que psicanalistas têm medo de travestis?), Periodicus, n. 5, v. 1, 2016.
EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres. Niterói: Editora Nsabro, 2007.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, p. 223-244, 1984.
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LACAN, Jacques. Sur l'identité sexuelle: à propos du transsexualisme. École de la Cause Freudienne (Ed.). Le Discours Psychanalytique, p. 312-350, 1976, p. 331.
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