No último pub ainda havia um brinde: Neoliberalismo, desamparo e caminhos para coletividade

Authors

  • Fabrise Rosa Amaro Author

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18569023

Abstract

Vivemos hoje um novo modo de ser do capitalismo, o neoliberalismo. Que se estrutura não apenas como uma lógica de mercado, mas se estende a todos os âmbitos da vida. Uma das características que se destaca é o reengajamento do Estado sobre novas bases. O Estado não deixa ou diminui sua intervenção, ele segue na direção em que mina os alicerces de sua própria existência. Um anti-intervencionismo como princípio. Tendo como modelo de subjetivação a empresa, o neoliberalismo age fazendo com que o sujeito se governe como empresa de si mesmo. O Outro passa a ser o seu concorrente. Ao minar os alicerces de sua própria existência, o Estado se retira do lugar de amparo e suporte. Exige-se autonomia, no entanto, as formas neoliberais de poder destroem toda as possibilidades para que isso aconteça. Ao operar na retirada das redes de proteção e por um anti-intervencionismo do Estado, a racionalidade neoliberal empurra o sujeito a uma condição de ausência de ajuda, uma condição de desamparo. O desamparo trabalhado a partir do viés psicanalítico se torna uma importante ferramenta para compreender como a racionalidade neoliberal investe na condição de desamparo e produz uma situação de desamparo. Um desamparo constituinte do sujeito, que quando se torna desestruturante, instala-se como uma situação traumática, ou seja, uma situação de desamparo, que impossibilita o sujeito de agir e buscar novos caminhos de simbolização. O desamparo pressupõe a presença de um Outro, no entanto, e contrário a isso, o neoliberalismo opera na individualização do sujeito e de suas relações. Apostando nesta característica fundamental do desamparo, a alteridade, utilizo-me da arte cinematográfica, o romance realista “O Último Pub”, que narra a vida de TJ e Yara e nos fornece pistas para uma virada do desamparo ao coletivo. TJ, dono de um bar decadente no norte da Inglaterra, tenta manter vivo o espaço como ponto de encontro comunitário. Yara refugiada síria, que chega com outros refugiados sírios. A chegada dos refugiados provoca tensões com os moradores locais, divididos entre solidariedade e hostilidade. A trama narra a amizade de TJ e Yara, que num ambiente de desigualdade, xenofobia buscam caminhos que levem à possibilidade de reconstruir os laços. Ao retomar a ideia de que o desamparo também é uma abertura e pressupõe um outro, torna-se possível idealizar a criação de caminhos contrários à individualização. Tomando como aposta a reunião de pessoas, podemos conceber a ideia de que a partir do momento que corpos se juntam, eles exercem um direito de aparecer, que afirmam e os colocam no campo político, possibilitando exigir condições que sejam possíveis de sustentar a vida. Ao se reunir os sujeitos podem relatar os seus apelos a um outro. Todo trabalho de individualização e situação traumática produzido pelo neoliberalismo, ao ser compartilhado, possibilita que o sujeito compreenda que a culpa imposta, a desesperança, a insegurança, sobretudo sua condição não é algo particular. A reunião, o ato de coletivizar possibilita um endereçamento ao outro, que marca então uma condição de preservação de vida frente ao desamparo.

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Published

2025-12-15

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Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades

How to Cite

Amaro, F. R. (2025). No último pub ainda havia um brinde: Neoliberalismo, desamparo e caminhos para coletividade. Revista Periphérica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569023