Psicanálise e decolonialidade: implicações clínicas
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18569056Resumo
O avanço dos estudos decoloniais, em seu movimento de crítica ao colonialismo como produto da modernidade, gera impasses e potencialidades para a prática psicanalítica. A viabilidade dos modelos psicanalíticos eurocentrados diante de populações originárias é tensionada, revelando lacunas da teoria que constituem, simultaneamente, limites de atuação e possibilidades de expansão epistemológica. Diante dessas questões, empregou-se uma revisão bibliográfica sistemática de artigos científicos sobre a relação entre psicanálise e decolonialidade como tema, seguida de uma análise de conteúdo do material coletado que a partir da leitura dos artigos, permitiu o agrupamento das passagens e a construção de três categorias emergentes mutuamente excludentes: 1. Os limites de uma posição conservadora na psicanálise; 2. Os impasses epistêmicos diante da alteridade; e 3. As alternativas ético-decoloniais para a prática psicanalítica; das quais destaca-se a última para o recorte do presente trabalho. Os resultados encontrados permitiram identificar ideias valiosas para construção de uma posição de atuação da psicanálise alinhada a valores e questões decoloniais. A ideia de ‘analista cidadão’ proposta por Éric Laurent se destaca pelo compromisso ético-político da figura do analista em promover a transformação social através de ‘convergências entre o discurso analítico e uma política democrática inclusiva’. Para isso, é necessário que o analista seja capaz de oferecer uma ‘escuta situada’, ou seja, que este analista seja capaz de reconhecer os atravessamentos de gênero, raça, classe e outros que constituem o lugar do qual ele oferece sua escuta. Não obstante, uma das contribuições centrais encontradas remete a Frantz Fanon ao firmar a necessidade de acrescentar ao trabalho diagnóstico uma sociogênese do sofrimento psíquico, na qualidade de condição ética e técnica diante da insuficiência dos modelos psicanalíticos em lidar com a colonialidade e o sofrimento imputado a corpos racializados. Estratégias epistemológicas também são levantadas em vista de novas formas de construção de saberes emancipadores. A proposta de uma ‘desobediência epistemológica’ postula a necessidade de um constante questionamento do lugar de Mestre e do discurso proveniente desse lugar e uma constante interlocução da psicanálise com outros campos do saber. Sobre o primeiro aspecto, valorizar o saber produzido nas margens através de uma ‘epistemologia do posicionamento’ é uma ferramenta útil para ‘reinventar o Mestre’. Nesse sentido, o contato da psicanálise com povos originários e suas concepções de fenômenos como os sonhos, por exemplo, não deve constituir uma impossibilidade, mas sim uma potencialidade de expansão da teoria. Sobre o segundo aspecto, é enfatizada a necessidade de um tensionamento da teoria psicanalítica através das críticas tecidas por outras áreas do saber leve a composição de uma psicanálise ‘hibridada’ e sensível politicamente. A importância desses resultados consiste em situar, dentro de um debate tardio e contemporâneo, as tendências e possibilidades de avanço que vêm sendo construídas. A problemática é urgente e incontornável, sendo uma responsabilidade ética do psicanalista manter-se à altura dos desafios de seu tempo. É imprescindível que a transformação atinja o tronco psicanalítico, não se restringindo a ramos específicos.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 1 - Corpo Clínico
Como Citar
Psicanálise e decolonialidade: implicações clínicas. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569056