"Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental": Reflexões psicanalíticas sobre os efeitos da mídia na relação das mulheres com o próprio corpo

Autores

  • Brenda Seixas Autor
  • Juliana Gama Autor

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18569058

Resumo

O presente artigo propõe uma reflexão psicanalítica sobre os efeitos da mídia na construção dos corpos femininos e na intensificação do mal-estar das mulheres em relação à própria imagem. A partir de uma revisão de literatura narrativa, de natureza qualitativa, articulam-se conceitos freudianos e lacanianos à análise do papel desempenhado pelas redes sociais na contemporaneidade. Historicamente, o corpo feminino foi atravessado por diferentes significações culturais: da valorização atlética na Grécia antiga à repressão medieval, da idealização renascentista à mercantilização moderna. No século XXI, com o avanço das tecnologias digitais, as mídias sociais assumem protagonismo na produção de ideais estéticos e na disseminação de padrões homogêneos, promovendo um corpo estetizado e artificial. Ferramentas como filtros e aplicativos de edição reforçam a promessa de perfeição, ao mesmo tempo em que intensificam o sofrimento psíquico diante da impossibilidade de sustentar tais ideais. A psicanálise desloca a noção de corpo do registro biológico para compreendê-lo como efeito de linguagem, atravessado pela falta e constituído pelo olhar do Outro, como explicita Lacan no Estádio do Espelho. Freud já havia apontado diferentes modalidades de corpo — histérico, pulsional, narcísico —, todos atravessados pela linguagem e pelo desejo. Lacan, ao introduzir a noção de gozo feminino e a ideia de que “A Mulher não existe”, revela que não há um universal capaz de definir o feminino, mas singularidades que se constroem uma a uma. Nesse contexto, os corpos femininos se tornam terreno privilegiado de disputa entre ideais sociais e experiências subjetivas. Os discursos midiáticos contemporâneos se articulam ao discurso capitalista, que opera pela recusa da castração e pela promessa de felicidade via consumo. Essa lógica transforma os corpos femininos em objetos de desejo e mercadoria, reforçando sua submissão a cirurgias, procedimentos estéticos e remodelamentos constantes. O Brasil, por exemplo, figura entre os países que mais realizam cirurgias plásticas no mundo, sobretudo em mulheres adultas, o que evidencia a força desses ideais. Tal cenário contribui para a disseminação dos chamados “novos sintomas”, manifestos em quadros de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e baixa autoestima. As redes sociais, particularmente o Instagram, potencializam esse processo ao oferecer ferramentas de edição e comparação constantes. O desejo de “estar bem na foto” traduz-se na busca por reconhecimento do Outro, evidenciando que, para muitas mulheres, a relação com a própria imagem é mediada por padrões inalcançáveis. O resultado é um ciclo de insatisfação, em que a beleza aparece tanto como promessa de valorização quanto como instrumento de violência simbólica contra o corpo feminino. Conclui-se que a mídia, ao ditar modelos homogêneos, mina a singularidade das mulheres e enfraquece sua relação subjetiva com o corpo, promovendo alienação e sofrimento psíquico. A psicanálise, por sua vez, possibilita compreender que o corpo não é dado natural, mas efeito de significações e lugar de inscrição da história de cada sujeito. Assim, oferece caminhos para resistir à tirania dos ideais midiáticos, afirmando que ser mulher não pode ser reduzido a prescrições universais, mas se constitui como processo singular e sempre inacabado.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Downloads

Publicado

2025-12-15

Edição

Seção

Eixo 2 - Corpo Estético e Tecnológico

Como Citar

"Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental": Reflexões psicanalíticas sobre os efeitos da mídia na relação das mulheres com o próprio corpo. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569058