A palavra sem corpo: considerações sobre Efeitos das Práticas diagnósticas contemporâneas.
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18569086Resumo
Diante da justaposição entre economia e vida psíquica, observa-se, em cada época, a construção e a internalização de determinadas formas de viver. Nesse contexto, Safatle (2021) conclui que não se sofre da mesma maneira dentro e fora do neoliberalismo. De forma semelhante, Dunker (2015) destaca como a emergência da produção de diagnósticos, dentro da lógica neoliberal, a partir de sistemas classificatórios e descritivos, resulta na determinação de formas de tratamento, atualmente hipercentrados na medicalização dos corpos e da infância. Frente a esse cenário, o presente trabalho tem como objetivo discutir, a partir de uma perspectiva psicanalítica, os efeitos das práticas (psico)diagnósticas contemporâneas, marcadas por sistemas classificatórios e descritivos como o CID e o DSM, sobre a constituição subjetiva e o laço social, considerando sua articulação com os discursos econômicos neoliberais e seus impactos na concepção de sintoma, corpo e sofrimento psíquico. Para isso, foi realizada uma pesquisa narrativa, que contempla tanto autores críticos às atuais práticas (psico)diagnósticas, quanto os Manuais instituídos como padrão pela APA (2022). Como resultado, destaca-se a concepção psicanalítica de corpo e sua constituição imaginária pela linguagem, conforme abordado por Eidelsztein (2024), a fim de tensionar a fabricação de formas patoplásticas de concepção de si e do outro, formas essas que acabam por petrificar os modos de laço social. Desse modo, reflete-se que a transmissão do diagnóstico ao sujeito subverte as possibilidades de investigação daquilo que se repete em sua história de vida, reduzindo o sintoma a uma nomeação finalista que passa a operar como causa última de seu sofrimento. É digno de nota que, o DSM se propõe a diagnosticar de maneira categórica e individual os chamados transtornos mentais, valendo-se de uma abordagem descritiva e classificatória, sem consideração etiológica, com o intuito de formar uma linguagem padrão entre os profissionais da saúde. A inserção desses estados de nomeação no imaginário social pode ser relacionada à crítica de Politzer (2022) à psicologia clássica. Segundo ele, a tentativa de formalização dos fenômenos observados resulta na criação de um realismo psicológico abstrato, que obscurece aquilo que há de mais singular no sujeito: o drama, compreendido como um fato psíquico que se expressa por significados particulares, desprovidos de significações gerais e dotados de mobilidade em seu sentido. Nesse sentido, Lebrun (2008) discute como o discurso cientificista e neoliberal suprime a perda decorrente da subtração do gozo da linguagem. Em seu lugar, instaura-se a necessidade de obtenção de uma verdade fixa, eliminando o espaço para o vazio constituinte do sentido. Assim, na ausência de renúncia, o pacto civilizatório se dissolve. Por fim, diante dos tensionamentos teóricos suscitados, emergem questionamentos profícuos acerca do valor social atribuído ao diagnóstico, considerando-se o papel desempenhado por seus dispositivos de agenciamento institucionais e econômicos, sua transmissibilidade, e suas implicações nas formas de autodeterminação dos sujeitos. A pesquisa, por fim, tensiona o lugar da palavra e seus modos de circulação, apontando para o império dos significantes-mestres na construção de narrativas e na uniformização dos modos de reconhecimento social de um “sintoma” descritivo, construído sem corpo.Downloads
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Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 7 - Corpo Subjetivo e Psicanálise
Como Citar
A palavra sem corpo: considerações sobre Efeitos das Práticas diagnósticas contemporâneas. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18569086