Violência e Testemunho em Conversações com Adolescentes em uma Escola da Rede Pública
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18568533Resumo
Apresentaremos, neste trabalho, um recorte dos resultados parciais produzidos na pesquisa “Sobre Nós: Adolescências, Saúde Mental e Territórios”. O referido estudo está sendo realizado em uma escola pública de ensino médio em um bairro periferizado na cidade de Fortaleza (CE). Como objetivo geral, pretendemos conhecer as interpretações produzidas por adolescentes acerca do sofrimento psíquico vivenciado, bem como sobre as estratégias de cuidado que criam e compartilham. E, dentre os objetivos específicos, centraremos nossa discussão sobre o objetivo que almeja observar se os determinantes sociais da saúde, como racismo, pertencimento a um território e nível de exposição à violência aparecem na fala dos adolescentes como produtores de sofrimento. Uma das estratégias metodológicas utilizadas tem sido as conversações psicanalíticas, uma forma de pesquisa-intervenção norteada pela teoria e ética da psicanálise lacaniana. Até o presente momento foram realizados três grupos de conversação. O primeiro com duração de seis encontros. O segundo e o terceiro com dois encontros em cada. A interrupção se deu em função do calendário escolar. Acerca das conversações como método, destaca-se a oferta de um espaço produtor de saber, através da livre circulação de palavras, com a presença dos atores envolvidos no que se apresenta como motivo de impasse em um dado contexto e com a mediação de um profissional disponível para criar as condições propícias para que a fala possa advir, provocando associações e novos modos de posicionamento frente a situação tomada como problema. No cenário psicanalítico, a Conversação surge enquanto dispositivo proposto por Jacques-Alain Miller, na década de 90, para discussão de casos que levantavam indagações referentes aos próprios limites da psicopatologia estrutural. Originalmente proposta como dispositivo clínico, foi aproveitada para intervenções e realização de pesquisas, no âmbito escolar, por Philippe Lacadée, nos subúrbios parisienses. Em uma análise preliminar dos temas pautados pelos participantes durante as conversações, uma das fontes de sofrimento presentes no processo de associação das ideias foi a violência em algumas de suas dimensões (violência intrafamiliar, violência relacionada ao narcotráfico, violência de gênero e orientação sexual, violência urbana e violência institucional). Quando as cenas que fazem parte do cotidiano dos jovens que habitam naquele território foram relatadas, um movimento importante se deu no sentido da desnaturalização das diversas violências, sobretudo, aquelas que envolvem o Estado e a disputa de facções. Consideramos que tal movimento aconteceu a partir de uma postura adotada pela equipe que conduzia o trabalho, a qual adquiriu uma função testemunhal diante dos fatos ocorridos. O exercício desta função que legitima o vivido como experiência de violência fez com que os relatos acontecessem de outro modo, sendo acompanhados por estranhamento e indignação. A problemática abordada neste trabalho contribuiu para o eixo Corpo Político e Marginalidades, ao colocar em evidência os corpos de adolescentes periferizados e os modos pelos quais a violência os atravessa, caracterizando, por um lado, um cenário de profundo desamparo e ineficácia das políticas públicas de proteção social e, por outro, a relevância de ações que fortaleçam as resistências coletivas.Downloads
Os dados de download ainda não estão disponíveis.
Downloads
Publicado
2025-12-15
Edição
Seção
Eixo 6 - Corpo Político e Marginalidades
Como Citar
Violência e Testemunho em Conversações com Adolescentes em uma Escola da Rede Pública. (2025). Revista Peripherica, 1(1). https://doi.org/10.5281/zenodo.18568533