A clínica da escuta Periphérica e o sofrimento ético-político: reflexões sobre o corpo negro e o uso de substâncias
DOI:
https://doi.org/10.5281/mvzwt097Palavras-chave:
sofrimento ético-político, corpo negro, uso de substâncias, trauma destruinte, clínica periphéricaResumo
Este artigo investiga a relação entre corpo negro, uso de substâncias e sofrimento ético-político no Brasil contemporâneo, argumentando que a drogadição não pode ser reduzida a falha moral, descontrole pulsional ou déficit individual de autocontenção. A hipótese central é que, em uma sociedade organizada pela antinegritude estrutural, o recurso à substância frequentemente comparece como resposta precária a formas historicamente reiteradas de humilhação, precarização, luto sem reconhecimento, violência policial e desamparo social. Em termos teórico-metodológicos, o texto assume a forma de ensaio teórico-clínico e articula Freud, Lacan e Winnicott à crítica racial e anticolonial de Fanon, Lélia Gonzalez, Juliana Borges e Paulo Freire, em diálogo com Lima Barreto, Graciliano Ramos e com experiências clínicas situadas no campo da redução de danos. O artigo sustenta três teses principais: primeiro, que o uso de substâncias entre sujeitos negros e periféricos deve ser compreendido como formação de compromisso entre economia psíquica e violência estrutural; segundo, que as comunidades terapêuticas, quando organizadas sob racionalidade moralizante, abstencionista e religiosa, atualizam a lógica manicomial ao individualizar o sofrimento e ocultar suas determinações raciais e sociais; terceiro, que a escuta periphérica e a clínica periphérica constituem uma torção ética da psicanálise, deslocando-a do paradigma tutelar para uma política da escuta capaz de recolocar o sujeito no campo da palavra, do laço e da historicidade. Conclui-se que, diante da rasura histórica da subjetividade negra, a tarefa clínica não é adaptar o sujeito à norma branca de saúde, mas desorganizar a branquitude epistêmica da própria escuta.
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