Pacto narcísico e subjetividade descartável nas infâncias
DOI:
https://doi.org/10.5281/bcv2vb09Palavras-chave:
violência da interpretação, pacto narcísico, singularidade tecnológica, infâncias trans, subjetividade descartável, transepistemologiaResumo
Este artigo examina a contradição estrutural entre o projeto tecnocrático de imortalidade inscrito na Singularidade de Ray Kurzweil e a condição de subjetividade descartável (YORK, 2026) que caracteriza as infâncias trans e travesti no contexto ocidental contemporâneo. Mobilizando a psicanálise de Piera Aulagnier — em especial o conceito de violência da interpretação e o pacto narcisista — articulada ao narcisismo freudiano e à transepistemologia de Sara Wagner York, o artigo argumenta que a promessa tecnológica de uma vida infinita opera como sintoma de um pacto narcisista que distribui desigualmente o direito à existência, enquanto certos corpos são projetados para além da morte, outros são produzidos como descartáveis desde o berço. A depressão endêmica e as configurações borderline que marcam as infâncias trans são lidas aqui não como patologias individuais, mas como efeitos clínicos de uma violência interpretativa que antecede o nascimento do sujeito.